O que eu queria que estivesse aqui escrito é aquele texto, mal educado, escroto e sincero, que te escrevi na madrugada. Mas eu sou polida, eu tenho escrúpulos, e não teria paciência pras tuas perguntas cretinas. Sim, porque tudo pra ti são perguntas, mesmo quando as coisas são diretas e são pra outras pessoas. Já as tuas diretas - as que só não te esfrego na cara porque meu braço ainda não criou o tamanho de estapear nessa distância - essas, nunca! Como fosse cego. Muito cego, pra não usar outra palavra bem mais ofensiva. E realista.
Não vou colocar ele aqui. Vou só fazer vontade nos outros de saber o que eu realmente queria dizer. O que eu, se tivesse voz pra tanto, tava cantando em todas as rádios, me rasgando de te achincalhar. E não por recalque, só pra te achincalhar. Puro prazer, sadismo. Só porque eu sou boazinha demais pra minha bondade ser verdade. Porque eu sou uma megera, e como todas, quero que você se foda e quero assistir tomando um drinque naqueles banquinhos altos, charmosos, de bar. Ou dois. Ou quantos a tua escrotice permitir.
Não vou colocar ele aqui. Mas vou fazer um pequenino texto, acerca de um talzinho chamado Bernardo, pra ficar assim, hm, não biográfico. Acontece que o Bernardo era uma cara muito inteligente. Um cara boa pinta. Um cara interessante. Bem, era o que a, digamos, Luisa achava. E pintava quadros, mentais ou não, do ‘seu muso', que tava mais pra natureza morta que qualquer outra coisa. Ela, ilusão e pincéis. Ele, ali, meio maçã do pecado meio abacaxi. Mas aí a Luisa, que tava terminando um quadro, fechou os olhos de princesa, que tinha aberto só pra ele depois de sair daquela masmorra imunda, olhou de verdade e viu que tinha algumas coisas bem mais vivas ao seu redor. Ok, a Luisa foi dar uma volta, conheceu outros caras que, aproveitando o kit de metáforas baratas que eu comprei numa liquidação, matariam um dragão por ela. Cortariam a grama do castelo, trocariam a água do fosso, sei lá. O que passa é que a Luisa viu que o Bernardo tava mais pra pangaré do príncipe do que pra príncipe. Era bonito – menos do que ela pintava, certeza. Era interessante, mas num contexto intelectual em que os museus chatos também são. E só era inteligente na hora que convinha. E na hora que convinha, nada.
Um dia, numa epifania de quinta categoria, Bernardo resolveu tentar conversar de uma forma mais, diremos... Tentou conversar com Luisa de uma forma menos... Ah, foda-se. Tentou conversar como gente com ela. Mas não conseguiu, porque de gente a Luisa tem pouco. E o Bernardo acha que tem muito. Então, veio a decepção com sua mágica e transformou a Luisa numa ridícula escrevendo contos as quatro da manhã, e o Bernardo... E o Bernardo? O Bernardo ela não transformou em nada... Ele já tinha fugido da conversa há muito tempo. Além do que, tava tão desinteressante aquela altura que nem valia gastar feitiço.
Então caiu uma tempestade, e depois veio sol, arco íris, passarinho, tudo aquilo que vem depois da merda. E a Luisa voltou a fumar e parou de pintar naturezas mortas, e passou a deixar as naturezas vivas a pintarem. Descobriu cada pincel... Do Bernardo teve um a notícia há tempos: disseram que estava fazendo figuração de banana numa fruteira de filme B.
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