Eu queria uma festa hoje. Não pude dormir pensando nisso. Eu me devia uma festa hoje. E te devia o meu melhor. Se não a presença, apaixonada e tola, ao menos algo de tolo, como o calendário riscado desde aquele dia, ou todos os cacos de lembrança perdidos pela casa, aquele caderno amarelo cheio de declarações de amor, ou mesmo esse bolo que fiz pra te comemorar sozinha.
Escolhi compenetrada a receita. Tinha de ser completa, tinha de te ganhar os olhos e a boca. Tinha que te fazer meu, por inteiro, por instantes. Tinha de ser uma delícia, assim como nós. Bolo de café trufado, doce na medida a te mostrar todo meu apreço. Doce como o gosto do teu beijo morando no meu céu da boca. Preso entre os dentes como o chiclete do Mautner. Doce como o riso que escapa, entre esses mesmos dentes, a cada recordação caída do balão surpresa pendurado, subjetivamente pendurado acima de minha cabeça, onde jazem, escolhidas a dedo todos os pequenos relicários em que te transformei dentro de mim.
Discuto pacientemente os ingredientes com o moço da canção: bato os ovos inteiros? Me jogo inteira na massa ou me guardo para ser recheio? Junto à farinha – do desejo? – e misturo os ingredientes como se com isso me misturasse a ti, como num orgasmo unindo os corpos num instante curto e luminoso. A água do café borbulha, e fico assistindo a mágica que tinge o líquido e perfuma o ar. Um copo de café forte na massa, dois copos de café forte em mim. E a cada gole, tua presença me invadindo. O gosto que não é teu, o calor que também não te pertence. Maybe i’m just amazed,e te pinte em cores vivas pela casa pra disfarçar o cinza lá fora, o cinza aqui dentro, as cinzas do resto. Raspo a tigela como se arranhasse teu corpo jogado nessa mesa cheia de farinha, num fetiche que me arranca arrepios e risos ao mesmo tempo.
Experimento o resultado como se desse um primeiro beijo: cheia de expectativas e água na boca. Amarga como eu, essa receita. Pesada como a tua falta, escura como o dia de hoje, que nasceu gris só pra me acompanhar na cozinha. Coloco açúcar, e experimento. Acrescento mais saudade, mais baunilha e um pequeno pedaço de mim, e então levo tudo ao forno, para que cresça como cresce essa vontade dentro do peito.
Observo as chamas do fogão enquanto derreto o chocolate, que vai cobrir o bolo e teu corpo nas minhas fantasias. O cheiro adocicado invade o ar da casa que é pequena, mas abriga todo o tamanho da tua ausência habitando sons e silêncios. Preparo o recheio com a volúpia de quem descobre um corpo amado em meio ao sono, receoso de um despertar inesperado, mas tentado por aquele diabo meio Bukowski que vive nas insônias. A calda no fogo explode em bolhas como fosse lava incandescente, e me acende as entranhas que se contraem nesse corpo quente, no calor desta cozinha que agora abriga minhas chamas.
Danço aquele blues pela sala, acompanhada do vazio entre esses móveis e espero o tempo passar. Enquanto danço sozinha, deves estar comemorando em meio aos teus. Sorrio feliz pela perspectiva de um sorriso te invadindo, feliz também. Queria que me pudesse ver por pequenos instantes, apenas para que se percebesse em pedaços, ao ver quanto de ti paira aqui, nesse ar, onde Nina e eu te desejamos se liquefazendo sobre meu corpo morno, e me inundando inteira.
Bolo pronto, e a a casa rescendendo a solidão e nostalgia. Cortado ao meio, como tanta coisa por aqui, recheio com calma e sorrisos o bolo que fiz pra te amar em silêncio. Salpico as vontades todas guardadas dentro daqueles pequenos potes sem rótulo, e finalizo com todos os beijos que te daria se estivesses aqui, recheando esse bolo que hoje é só meu. Cubro com cuidado para que o chocolate fique uniforme, pois meu cuidado com esse bolo hoje é meu cuidado contigo, e busco os suspiros mais fundos no peito para enfeitar com capricho teu presente. Então, como uma viúva olhando triste os retratos da sala na penumbra, fico contemplando imóvel meus sentimentos ainda quentes.
Aqueço aquele café já ranço e me sento pra comemorar teu aniversário, para te desejar na distância todo o brilho que ainda não vês, mas que te acompanha calado. Sirvo mais uma xícara de café, e penso em quantos bolos estão sendo feitos a ti nesse momento, quantos já o foram e quantos ainda o serão. Não sei quem te será mais perto, nem quem te será mais caro hoje. E sinto pena de mim, que nem ao menos te contarei que, entre bolo e saudade, fizeste aniversário também aqui dentro de mim.
Transformaste literatura em receita de se dissolver em emoção; sensações, sentimentos, lembranças, expectativas em um ambiente em que se mesclam mundos possíveis a devaneios, mundos prováveis a realidade de uma data.
ResponderExcluirA nós, leitores, cabe apenas sentir o aroma de café que perfuma o texto.