sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Bóris

Me assaltou de repente. Acordei às cinco da manhã em crise. Frenética. Em meio a um prato vazio e um livro aberto, com um garfo entre os cabelos. Meio bêbada, é verdade. Mas apenas meio. Insone por inteiro e meio bêbada me vi na primeira crise ortográfica do ano. Forte, tão forte que me tirou do sono dos justos. Ok, justos não seria a palavra exata nesse caso. De qualquer forma, eu que dormia placidamente embriagada entre os escombros da noite anterior, que terminara por me colocar na cama cedo, acordei de sobressalto, sentando de imediato. O motivo deste despertar repentino: a palavra sobrancelha.

Sim. Desde a crise ortográfica de 1999, causada pelos – inacreditavelmente plausíveis – comentários de Dona Lidia, antiga empregada da família, acerca dos termos pírula e célebro não me recordava de um despertar tão aflito. As justificativas de Dona Lídia me assombraram por meses. Eu fechava os olhos, estavam às palavras ali, dançando. Um mágico balé de pírulas, de todas as cores – eu gostava muito das verdinhas – no teto do meu quarto. Pírulas para o célebro. Quando ia tomar café, lá estava Dona Lídia e seu conselho matinal: café faz bem pro célebro. E eu emborcava mais uma xícara, na esperança de escapar das pírulas para Alzheimer. 

Anos depois, já sem os sábios conselhos de Dona Lidia, tomava café quando tive um sobressalto: alguém roubara o ene da minha mortaNdela. Eu jazia com o pão, cortado ao meio, na mão. Mortadela. Mortadela! Quem foi que roubou o ene que estava ali? MortaNdela. MortaNdela! Dona Lidia, cadê a senhora nessa hora, pra me explicar o que está acontecendo? Era tão simples: vó, faz um pão com mortaNdela pra mim? Nunca mais! Acabaram pra sempre com o meu regalo infantil. Roubaram a magia das minhas tardes de infância, roubaram o ene que recheava meus pães nas férias. Foi o fim de uma era. Hoje  em dia já não como mais carne, mas mesmo que comesse todas as mortadelas do mundo, nunca preencheria o vazio existencial deixado pelos enes que nunca existiram nos meus sanduíches.

Hoje, na primeira crise ortográfica do novo século, o fantasma era semelhante, de consoante vizinha. Sobrancelha. So –bran-ce-lha. Cadê o eme? Cadê, meu deus? Dona Lidia, cadê a senhora?  Eu me sentia órfã, desolada. Então aquele tufo de pêlos, desordenadamente estacionados em cima dos olhos, não servia para nada? Eu gastara horas da minha vida fazendo a soMbrancelha – sim, porque ela ainda era soMbrancelha – a troco de nada? Então ela não fora sabiamente preservada pelas alterações evolutivas da raça humana para fazer sombra aos meus olhos? Era apenas umas sobra? Sobra-celha?Nada mais fazia sentido. Eu não conseguia acreditar! Desolação. Eu rolava na cama e passava a mão pela testa, murmurando ‘soMbrancelha... soMbrancelha... quero as minhas soMbrancelhas de volta... onde a lógica, onde a ordem natural das coisas?’ e, baixinho, agarrada ao travesseiro, chamei por Dona Lidia até adormecer. E sonhei com um russo, chamado Bóris, de vastas sobrancelhas.

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