sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

         Analisava foto a foto o que pudera ter visto de tão interessante ao ponto de pendurar aqueles retratos todos pelas paredes do quarto, pelas paredes de si mesma. Analisava calma e friamente cada traço daquele rosto - misto de sarcasmo e inércia – que a encarava de volta. Os olhos escuros, a ausência de uma pinta em algum lugar que nunca soubera dizer. O sorriso, lindo e canalha, de dentes não tão perfeitos. Aquela barba acanhada, que sempre causara estranheza a Michelle, acabrunhada de cobrir a pele não tão branca como a dela, mas de um desbotado sincero.
        Com as fotos nas mãos, uma a uma, lia detalhes do corpo dele, daquele corpo que já não desejava mais. Ou talvez desejasse, não sabia ao certo. Afinal, era delicioso. Era mesmo?  O sexo era delicioso, desse fato nunca pudera fugir. Mas agora, ali, em frente aquele quebra-cabeça de retratos jogados pelo chão, muitos deles que nem lembrava onde tirara, ela reconstruía anatomicamente aquele homem que tão absurdamente amara. Cada pedaço de pele que tocara, nos eternos instantes em que se dava a ele com as mãos, e o tomava seu sem permissão. Engraçado, era como olhar um daqueles enormes cachorros de porcelana de antigamente: inquietante.
     Uma foto em preto e branco. Michelle sempre preferira o gris e as sombras para as fotografias. Recordava nitidamente de haver tirado aquela foto, do quanto o desejava ardentemente quando o fizera. Fechando os olhos, tentou buscar dentro de si o calor daquele desejo. Afinal, debaixo daquele monte de cinzas que ele deixara empilhado no canto, não seria surpresa restar uma lenha morna, tão morna quanto o descaso dos dois. Mas nem isso. De olhos fechados, o via colado na sua retina, manchado como um velho retrato pregado na parede úmida da sala de uma viúva eternamente enlutada. Quando os abria, o via num tom sépia, típico das coisas antigas guardadas nas gavetas bolorentas da sala de música de dona Conceição. Exato! Olhando todas fotografias largadas no chão da sala, era isso que sentia: como se ele houvesse sido coberto de bolor. Mofo ordinário. Ordinário como as escolhas banais que ele repetidamente tentava esconder dela, e que sem querer, sem procurar Michelle encontrava estampadas como manchetes sensacionalistas. Estampadas na cara daquelas palavras sem jeito, no timbre hesitante e fugidio da voz, nas canções escritas por outrem. Nas canções não cantadas. No mutismo renitente escapando dos dedos. Naquelas sabidas carências nas madrugadas em que não tombava amortecido na cama, ou não a dividia com ninguém. Como Michelle sabia dessa carência estúpida, que o jogava às companhias mais insípidas, às mulheres mais ocas, ao breve conforto de se saber na carne de alguém. E que o tornava, a seus olhos, cada vez mais desinteressante.  E ela que esperava tanto! Que se esmerara em guardar em frames cada gesto, cada gosto, cada encontro. Ela que procurara tanto...
       Olhando do alto as fotografias – brancas pretas gris sépia veludo verde – constrói uma cena em tom de sonho: todas aquelas imagens voando, naqueles tons terrosos das folhas outonais, levadas por um sopro seu. Um sopro vindo do mais íntimo dela, vento de mar, de ressaca das marés de inverno. Levando pra longe a imagem dele – tão gasta, meu deus! - e lavando os olhos dela.

Nenhum comentário:

Postar um comentário