Ele era o maior galã. Ou pelo menos achava que era. Cruzava a rua com aquela cara de Erasmo Carlos dos sessenta, vigiando a minha janela. Eu, segurando sempre a mesma infantil xícara de café, naqueles horríveis pijamas ganhos no Natal, devolvia a cara de Wanderléia nos sessenta. Nos sessenta anos, inchada de boletas e birita.
Descabelada, descalça e sem a mínima vergonha na cara, eu ia até a porta e acendia um cigarro, com despeito mesmo. Desafiadora, do tipo ‘acordo feia mesmo, o que é que tem? ‘ eu me prostrava no umbral da porta e ficava esperando ele descer a rua. Galã, já disse né? Ao menos ele achava.
Uma manhã daquelas que não deveriam amanhecer, conversava com minha ressaca sentada em frente à janela, curtindo uma réstia daquele delicioso e tão raro sol dos invernos daqui. A xícara, a mesma de sempre. O pijama, outro, belamente sobreposto por um daqueles roupões lindíssimos que sua tia avó usaria. A cara, em contrapartida, nem sua tia avó usaria. Nem a minha, e olha que a dela não é lá grandes coisas. Com o cigarro grudado na boca, seca e com gosto de cinzeiro sujo, eu falava sozinha como todas as manhãs, observando os passarinhos comendo o pão que eu não conseguira comer. Ressaca, tem dessas. Já estava quase deitada no quintal, numa posição digamos assim, cubista, quando ele passou. Tá atrasado, pensei comigo. Ele chegou mais perto e respondeu: tô mesmo.
Olhei ao redor. Esse cara tá louco. Tá falando com quem? Será que ele ouviu meu pensamento? Como que ele ouviu meu pensamento? Vou mandar a merda. Ô meu, tá falando com quem?
- Com você oras.
- E como é que tu sabe o que eu tava pensando?
- Pensando? Você acabou de gritar ‘ Tá atrasado!’.
Olhei pra ele com aqueles olhos de ressaca - e não aquela ressaca poética dos olhos de Capitu. Olhos de quem dormiu mal mesmo, tá puta e quer vomitar. E vi que ele ainda estava parado no portão, brincando com a caixinha de correio – wtf? – e me encarando. Galã, ele achava. Meio Erasmo dos sessenta. E eu, nem sentar conseguia. Devo estar bêbada, e não de ressaca. Tô falando e acho que tô pensando. Definitivamente bêbada. Então, porque que raios que eu tô tomando café? Que desperdício de pó de café. De birita. De grana. Ah, tu ainda tá aí? Entra, senta aí no chão, faz um drinque pra mim. E o Erasmo ria, do portão. Tô falando sério porra, entra.
Joguei a chave, que estava no bolso do roupão, junto com um cigarro despedaçado e uma bala de uva. Detesto balas de uva. Engoli a náusea e dei as instruções pra abertura do portão. É, o Erasmo ali não era lá um gênio, vamos combinar. Mas era galã. Sentou na grama e acendeu um cigarro. Acendi um também, apesar de já estar com um aceso entre os lábios. Completamente bêbada, às dez da manhã de um belíssimo sábado. Belíssimo saco, isso sim. Como é que a noite passou tão rápido, como é que eu vim parar em casa? Pra quem será que eu dei ontem? Será que eu dei ontem? E ele ali, na grama, fumando e me olhando.
- Tô falando isso, ou pensando?
- Tá falando, baby.
Baby. Baby? Baby??? Quem o tremendão do Paraguai tá pensando que é, pra me chamar de baby? Tá na nóia, ou é totalmente desprovido de senso, mesmo?
- Escuta aqui, bicho... Tá achando que é quem pra me chamar de baby?
- Não sei o seu nome, quer que te chame de que? De linda? Com esse visual aí fica difícil...
Olhei pra ele de novo, com aqueles mesmos olhos, que descobri não serem de ressaca e sim de embriaguez pura. Analisando friamente, tava até meio difícil de focalizar. Mas apertei bem as pálpebras e olhei praquela cara cinicamente bonita. Ele até que era meio galã mesmo, sabe. Mas tinha tirado com a minha cara. Foco, mulher, foco! Responde a altura, com um monte de palavras que ele não vai entender, manda embora, joga a pantufa na cara dele. Não nessa ordem, senão era uma pantufa.
- Entra ali na cozinha e trás uma dose pra gente.
Foi essa a resposta a altura. Quanto orgulho de mim mesma! Genial, nessa manhã ensolarada de sábado, com um cigarro apagado na boca e um queimando sozinho apoiado na orelha da pantufa. Um cachorro, a pantufa. Dois, na verdade. Bêbada, bastante. Cadê o Erasmo com o copo?
- Ô tremendão, tá destilando a parada? Ou tá fuçando a minha gaveta de calcinhas, seu doente?
Coitado, não sei nem o nome dele e já vou ofendendo. Gostei dele. Não colocou gelo no gim, até porque não tem, mas não colocou e isso que importa. Gostas?
- De quê? De gim ou de você?
- De gim, né gênio.
- Sempre te escuto falando sozinha quando passo aqui. Sempre me perguntei se você era genial ou só maluca, ou se tá sempre no barato.
- Os três, tremendão. Os três.
- Sempre vejo você e o seu gato. Mora sozinha?
O que é que esse intrometido tá pensando? É da polícia? Inquérito agora então. Pega o formulário, Pacheco!
- Ahan. Ninguém dura muito aqui em casa.
Porque é que eu tô conversando com o Erasmo? Não quero conversar. Quero me dissolver, quero virar bolinha de sabão. Deve ser legal ser uma bolha de sabão né? Ficar voando, refletindo as coisas, cheirando bem, sem precisar trabalhar nem pentear os cabelos e de repente PLOFT! Estourar e zás.
- Gostei de você.
Quem disse isso? Ah, o Erasmo. Verdade, ele ainda tá aí. Bem galã, ele. Rindo porque eu quero ser bolha de sabão. Olha pra mim, Erasmo. Tô deitada no meio da sujeira do meu quintal, com um roupão cor de merda ao meio dia de um sábado. Ser bolinha de sabão, pra mim, seria o maior lucro. Você ia gostar de mim se eu fosse uma bolha de sabão? Ia parar pra conversar comigo? Traz mais gim pra tua amiga bolinha de sabão aqui.
Não lembro como ele foi embora. Não perguntei o nome dele. Não disse o meu. Nem se ele foi embora naquele dia. Sei que na segunda feira, quem estava atrasada era eu. E na caixinha do correio, havia uma foto do Erasmo Carlos – nos sessenta – com uns rabiscos atrás dizendo: ‘Baby bubble, me avise quando for estourar. Beijos, Erasmo. ‘
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirAcordei com um belo dia lá fora, daqueles que nem se sabe o que colocar no som, sabe? Pra não correr o risco de estragar o dia?...
ResponderExcluirE aí me vem você com essa. Eu não poderia esperar dia tão perfeito.
Divertido e "ressaquêta"! Bem como sabemos.