terça-feira, 11 de janeiro de 2011

07h29m

Tô enjoada desses lençóis vermelhos, desse pijama cheio de flores, do meu cabelo comprido. Enjoada do quarto atulhado de móveis inúteis mantidos por um ainda mais inútil apego sentimental. Tô cheia do saco da cor desse esmalte, dessa bagunça no canto, da falta dos meus vinis, do lado direito do fone de ouvido que não funciona, do meu lado esquerdo que não funciona. Tô cheia da alça daquele sutiã lindo, que me machuca. Das malas ainda não desfeitas, daquela pilha de louça suja na pia, da pia, dessa casa. Dessa picada de mosquito na minha coxa que coça há dias, dos mosquitos, dos dias. Dessa bicicleta atravessada no corredor porque eu não sei andar. De não saber andar de bicicleta. De ter rasgado minha calça nova naquele tombo.  Do meu joelho que não cicatriza nunca!  Das cicatrizes todas que não saram nunca. De todos esses tombos...
Tô cansada desse tédio, de dormir sem sono, e acordar com ele. De acordar sozinha. De dormir sozinha. De chorar sozinha, escondida, quando sinto saudade da minha gente. De querer demais voltar pra casa quando estou com eles. De nunca estar com eles. De nunca estar com ninguém. De não saber estar sem ninguém. E muito menos com alguém. De não ser alguém que eu goste muito de ser. De gostar de tanto ti, de muitas vezes não gostar nem um pouquinho de ti. De estar pensando nisso agora. De estar pensando em ti agora.  De estar pensando. De não gostar de nada aos sábados de manhã.  
Tô cansada dessa insônia intermitente dilacerando peito e pensamentos.

Foto: Mônia Rommel

 São exatamente 07h29min da manhã de um sábado ensolarado, e eu, que estou desperta desde as cinco horas, percebo que ainda não acordei de ti.

Um comentário:

  1. Amiga genial. E triste. Bonito evadir alma dilacerada atraves da arte. Penso que conserva o espírito.
    Saudades.
    Beijos

    ResponderExcluir