E eu estava sentada à mesa, calmamente, tomando aquele café ruim quando ele se sentou a minha frente. A mesa, que era de vidro – linda por sinal – deixava que entrevíssemos um ao outro de corpo inteiro, apesar de sentados separados por um móvel. De vidro, mas ainda assim, um móvel.
Ele, bonito da forma que sabia ser: calças sempre um pouco mais compridas que deveriam, pisadas pelo All Star que só trocava por chinelos de tira quando fazia muito calor; aquela infinita coleção de camisetas lisas e os cabelos desgrenhados. Bonito. Como só ele sabia ser, mas bonito. E seu cheiro me alcançava ali, do outro lado da mesa de vidro – linda por sinal – que tinha o formato de um triângulo. Estranha forma, estranhos nós. Já o cheiro... O cheiro eu conhecia, ansiava, e me invadia os pulmões como a primeira tragada de um cigarro.
E eu ali, com o elástico da minha meia – que miraculosamente não era branca, e sim estampada de florzinhas vermelhas. Gosto de pensar nelas como boninas, mesmo sabendo que não são flor alguma, uma mera representação barata do formato apenas - aparecendo. A calça jeans, apertada, e uma blusa que deixava meus seios a mostra, mas em contrapartida, ressaltava todo o resto que gostaria de esquecer. Tudo isso mergulhado na imensa xícara de café – ruim – a minha frente.
Por descuido, levanto um instante os olhos e caio no poço dos olhos – irônicos fundos lindos – dele, que inicia um diálogo com a pequena parte de mim que boiava acima do café.
- Adoro quando deixa o elástico da meia aparecer- diz ele sorrindo. Ainda mais quando abandona as irritantemente sanitárias meias brancas.
- Sabe que isso só acontece por que minhas pernas são longas demais para as minhas calças, retruco sem tirar os olhos do café. E sabe o quanto odeio isso.
- Ah... Pensa bem. Mulheres de pernas longas não têm alma, me disse ontem o Led. Assim como você.
Levanto os olhos do café e vejo a cara dele, bonito como só ele sabe ser, me olhando com um sorriso sarcástico. Lindo, como a mesa que nos dividia, mas morbidamente sarcástico. E mais uma vez, mergulho no café. Ruim, e agora já frio.
Ele me analisa, pela mesa de vidro, eu posso ver. Percorre meu corpo, da meia estampada de flores até a pequena presilha que uso nos cabelos, que eu adoraria que nesse momento me cobrissem o rosto. E lá vem outro comentário. Pressinto as palavras antes que elas deixem aqueles lábios – ah, aqueles lábios aqui mais perto do meu café - para cruzar o espaço ocupado apenas pela mesa - de vidro - e minha respiração entrecortada.
- Adoro essa dobrinha que sua barriga faz quando senta, baby.
Sirene mental. Bén bén bén. ‘ Essa dobrinha’ é AQUELA DOBRINHA. Aquela, temida, repelida, detestada com todas as forças. Já não bastava tirar sarro das minhas meias, ainda me chama de gorda. Gorda não, barriguda. E quando, com as bochechas já vermelhas, e os olhos crivando chispas, digo a ele que sei muito bem que estou acima do peso, ele – lindo – me diz que não, que gosta do meu corpo exatamente assim, com as pernas longas e aquela barriguinha, ali, no lugar onde deveria estar. E me chama de fofa, descaradamente, mesmo sabendo a ira que essa palavra me desperta vinda dele. Quando começo a abrir a boca para mandá-lo à merda, se debruça sobre a mesa e puxa meu lábio inferior, segurando-o entre indicador e polegar, dizendo:
- A única coisa que gosto mais que a dobrinha da sua barriga, que eu adoro ver, é esse beicinho que faz quando se sente acuada.
E, soltando o meu lábio, percebe o sorriso que começa a brotar em minha boca, e contorna a mesa - de vidro, linda – e se abaixa ao meu lado.
- Desculpa, mais uma vez menti pra você...
Meus olhos saltavam de dentro de mim pra dentro dele com a velocidade de um impulso elétrico, e começavam as chispas novamente, quando ele completa a frase:
- ...o que mais adoro em você é essa curva no seu sorriso, que contorna todos os obstáculos que cismamos em criar.
E me beija – lindo como só ele sabe ser – transformando o meu sorriso em dois.
Lindo, lindo!
ResponderExcluirMe tirou o fôlego, por uns instantes.