segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

A dobrinha.

E eu estava sentada à mesa, calmamente, tomando aquele café ruim quando ele se sentou a minha frente. A mesa, que era de vidro – linda por sinal – deixava que entrevíssemos um ao outro de corpo inteiro, apesar de sentados separados por um móvel. De vidro, mas ainda assim, um móvel.
Ele, bonito da forma que sabia ser: calças sempre um pouco mais compridas que deveriam, pisadas pelo All Star que só trocava por chinelos de tira quando fazia muito calor; aquela infinita coleção de camisetas lisas e os cabelos desgrenhados. Bonito.  Como só ele sabia ser, mas bonito.  E seu cheiro me alcançava ali, do outro lado da mesa de vidro – linda por sinal – que tinha o formato de um triângulo. Estranha forma, estranhos nós. Já o cheiro... O cheiro eu conhecia, ansiava, e me invadia os pulmões como a primeira tragada de um cigarro.
E eu ali, com o elástico da minha meia – que miraculosamente não era branca, e sim estampada de florzinhas vermelhas. Gosto de pensar nelas como boninas, mesmo sabendo que não são flor alguma, uma mera representação barata do formato apenas - aparecendo. A calça jeans, apertada, e uma blusa que deixava meus seios a mostra, mas em contrapartida, ressaltava todo o resto que gostaria de esquecer. Tudo isso mergulhado na imensa xícara de café – ruim – a minha frente.
Por descuido, levanto um instante os olhos e caio no poço dos olhos – irônicos fundos lindos – dele, que inicia um diálogo com a pequena parte de mim que boiava acima do café.
 - Adoro quando deixa o elástico da meia aparecer- diz ele sorrindo. Ainda mais quando abandona as irritantemente sanitárias meias brancas.
 -  Sabe que isso só acontece por que minhas pernas são longas demais para as minhas calças, retruco sem tirar os olhos do café. E sabe o quanto odeio isso.
 - Ah... Pensa bem. Mulheres de pernas longas não têm alma, me disse ontem o Led. Assim como você.
Levanto os olhos do café e vejo a cara dele,  bonito como só ele sabe ser, me olhando com um sorriso sarcástico. Lindo, como a  mesa que nos dividia, mas morbidamente sarcástico. E mais uma vez, mergulho no café. Ruim, e agora já frio.
Ele me analisa, pela mesa de vidro, eu posso ver. Percorre meu corpo,  da meia estampada de flores até a pequena presilha que uso nos cabelos, que eu adoraria que nesse momento me cobrissem o rosto. E lá vem outro comentário. Pressinto as palavras antes que elas deixem aqueles lábios – ah, aqueles lábios aqui mais perto do meu café  - para cruzar o espaço ocupado apenas pela mesa -  de vidro -  e minha respiração entrecortada.
 - Adoro essa dobrinha que sua barriga faz quando senta, baby.
Sirene mental. Bén bén bén.  ‘ Essa dobrinha’  é AQUELA DOBRINHA.  Aquela, temida, repelida, detestada com todas as forças. Já não bastava tirar sarro das minhas meias, ainda me chama de gorda. Gorda não, barriguda. E quando, com as bochechas já vermelhas, e  os olhos crivando chispas, digo a ele que sei muito bem que estou acima do peso, ele – lindo – me diz que não, que gosta do meu corpo exatamente assim, com as pernas longas e aquela barriguinha, ali, no lugar onde deveria estar. E me chama de fofa, descaradamente, mesmo sabendo a ira que essa palavra me desperta vinda dele. Quando começo a   abrir a  boca para mandá-lo  à merda,  se debruça sobre a mesa e puxa meu lábio inferior, segurando-o entre indicador e polegar, dizendo:
- A única coisa que gosto mais que a dobrinha da sua barriga, que eu adoro ver, é esse beicinho que faz quando se sente acuada. 
E, soltando o meu lábio, percebe o sorriso que começa a  brotar em minha boca, e contorna a  mesa  - de vidro, linda – e  se  abaixa ao meu lado.
 - Desculpa, mais uma vez menti pra você...
Meus olhos saltavam de dentro de  mim pra dentro dele com a   velocidade de um   impulso elétrico, e começavam as chispas novamente, quando ele completa  a frase:
 - ...o que mais adoro em você é essa curva no seu sorriso, que contorna todos os obstáculos que cismamos em criar.
E me beija – lindo como só ele sabe ser – transformando o meu sorriso em dois.

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