sábado, 1 de janeiro de 2011

Encruzilhada

E a vida segue. Cada vez mais filha da puta.

Acabaram os fogos, sobrou a louça suja na pia e a decepção de se ver no espelho exatamente o mesmo de ontem. Cadê o ano novo cheinho de novidades? Não era ele que os fogos de artifício anunciavam ontem? E aquela champagne, barata, que deixou só o gosto nojento grudado na língua, não era pra brindar esse ano novinho em folha?
Não uso roupas novas no Ano Novo. Nada de calcinhas coloridas. Sem nenhuma, talvez. Não dou cinco pulinhos pela fartura do irmão. Apenas bebo pra comemorar. Na verdade, beberia de qualquer forma. Bebo pela vida vazia que seguirá mesmo depois de todos os brindes e abraços.  Aquela vela com os nomes é a única coisa a que me presto, como uma simbologia de que pretendo ser melhor no novo ciclo. E nunca o sou.
Mesa farta, cheia de coisas que ninguém gosta - mas vejam só! Simbologias de novo: há de se comer leitão, que fuça pra frente, nunca – bem entendido!- nunca aves, que ciscam. E amanhã teremos frango no almoço. Incoerente? Imagina. É ano novo, minha gente! Lentilha comida nas exatas badaladas da meia noite, pra trazer dinheiro. Vem um coroa milionário no pacote da lentilha? Sabe que nunca reparei?!  As três uvas, cujos grãos guardados no papel laminado da champagne devem estar o ano todo na carteira.  Pra que? Agora dá pra pagar aluguel com grãos de uva? Acho que já estou bêbada, e a festa parece acabar. Tchaus distribuídos a sorrisos mais falsos que o do Silvio Santos, e a mesa esvazia.
Vamos todos para nossas casas continuar nossas vidas equilibradas num frágil fio: o drama. É absolutamente imprescindível dramatizar. Você pode ser um mentiroso, viver uma vida imunda de trapaças, pode não ter caráter algum. Pode ser mesquinho, pode ser covarde, pode iludir, enganar, e tudo isso com aquele sorriso pérfido por dentro.  Mas, pelo amor de Deus, minta quando não estiver sozinho. Minta pra conservar os laços.

E a vida segue, e ela sabe. E vai andando até encontrar outro caminho.



Ele, nunca vai saber.

2 comentários:

  1. Maravilha!
    Duro e frio, como o peru no dia 26 de cada ano. Me arriscaria a dizer que é genial! Mas, será que é mesmo isso que você quer?

    Adorei!

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  2. Ainda que seja absolutamente imprescindível dramatizar. Ou tornar literatura, antes que a realidade volte.

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