da série Aquarelas
***
Eu fazia desenhos na janela suada pela água fervente do café. Desenhava um trem. Um trem que me levasse pra longe, que viesse com todos aqueles barulhos dos poemas de Drummond, com as cercas passando do Quintana, com todos os adeuses da Cecília. E me desenhava na janela dele, bonequinha de palitos, com um largo sorriso e um gesto de aceno pendurado na ponta dos dedos, que, elevados ao céu, pareciam querer tocar uma nuvem. Desenhava um passarinho, e me lembrava daquela pena que recolhi naquela manhã em que a grama estava molhada, e eu olhava calmamente as vacas pastando e as nuvens preparando silenciosamente, em azul denso e escuro, a chuva. Eu amava aquela pena. Ela me lembrava que eu também sou feita de nuvem. Que vago por aí, escondendo sóis, dançando nos ventos e - quando blue - chovendo inteira pra voltar mais clara, mais pura, mais brilhante. E carregando todas coisas dos ares percorridos, das terras por onde passo. Parece que hoje vai chover. A água fervia e eu desenhava. Desenhava como criança, com traços tortos e confusos. O vapor ia cobrindo meus desenhos, e eu inventando a cada movimento de dedo uma nova história. E a cada novo elemento, fechava os olhos e sorria por dentro: me imaginava naquele trem, contornando aquela serra, cruzando caminhos que não conheço, descendo em uma estação qualquer para fumar um cigarro antes que a viagem continuasse. Por que ela sempre continua.
E eu continuo a menina na janela. Na janela desse trem, desenhado na minha janela.
***
Me vi dentro de uma página de Monteiro Lobato.
ResponderExcluirQuanta lindeza infantil... como foi bom voltar a ser criança, e quase me tornar um boneco de palitinho, feito em vidraça vaporizada, pra entrar naquele trem e sair estrada afora.