Estou sentada na sala, fumando no escuro. Descansando da limpeza. De te varrer de vez. Lavar teus riscos pelas paredes.
Do mofo, formando desenhos de veludo pelas paredes amareladas, eu até gostava. Agora os riscos, a me espreitar por todos os cômodos, até nos azulejos – por esses eu me sentia vigiada. Não, eu sentia que eles me acompanhavam onde quer que fosse. Dentro dessa casa, não havia mais onde olhar para o vazio. As paredes – sem quadros – estavam rabiscadas com poemas, com desenhos rudimentares e palavras jogadas, assim, ao léu naquelas noites de porre. Nos minutos preenchidos de conversas entre a tua lembrança e eu. Numa madrugada, sentada exatamente como agora, fumando no escuro, na poltrona em frente à porta - o farol dum carro iluminou a sala e eu vi um livro se formar pelas paredes. E a personagem não era eu. Então entendi que ali dentro nunca estaria sozinha, com tantos sentimentos pendurados a grafite juntando poeira ao meu redor. Eu precisava do vazio. De um pouco dele, ao menos.
Aos poucos fui esfregando as lembranças, sabe, ensaboando uma a uma. E fui lavando junto os quadros que o mofo criara pra ilustrar essa história. Aos poucos. Eu limpava tudo com a paciência de um colecionador. Aos poucos a casa voltava a ser amarela. E de repente, eu havia te raspado das minhas paredes – junto com água sanitária e bolor. Deu tanto trabalho apagar tudo! Meu corpo doía por inteiro. Foi preciso machucar por inteiro, querer por inteiro pra ir até o fim. Eu terminei a última parede. Olhei no relógio e já se fazia madrugada.
Apaguei as luzes e me sentei aqui, na poltrona em frente à porta. Ainda estou aqui, com meu cigarro, esperando que um carro passe e ilumine a sala.
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