segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Pequenino conto pra acertar as contas

O que eu queria que estivesse aqui escrito é aquele texto, mal educado, escroto e sincero, que te escrevi na madrugada. Mas eu sou polida, eu tenho escrúpulos, e não teria paciência pras tuas perguntas cretinas. Sim, porque tudo pra ti são perguntas, mesmo quando as coisas são diretas e são pra outras pessoas. Já as tuas diretas - as que só não te esfrego na cara porque meu braço ainda não criou o tamanho de estapear nessa distância - essas, nunca! Como fosse cego. Muito cego, pra não usar outra palavra bem mais ofensiva. E realista.
Não vou colocar ele aqui. Vou só fazer vontade nos outros de saber o que eu realmente queria dizer. O que eu, se tivesse voz pra tanto, tava cantando em todas as rádios, me rasgando de te achincalhar. E não por recalque, só pra te achincalhar. Puro prazer, sadismo. Só porque eu sou boazinha demais pra minha bondade ser verdade. Porque eu sou uma megera, e como todas, quero que você se foda e quero assistir tomando um drinque naqueles banquinhos altos, charmosos, de bar. Ou dois. Ou quantos a tua escrotice permitir.
Não vou colocar ele aqui.  Mas vou fazer um pequenino texto, acerca de um talzinho chamado Bernardo, pra ficar assim, hm, não biográfico. Acontece que o Bernardo era uma cara muito inteligente. Um cara boa pinta. Um cara interessante. Bem, era o que a, digamos, Luisa achava.  E pintava quadros, mentais ou não, do ‘seu muso', que tava mais pra natureza morta que qualquer outra coisa. Ela, ilusão e pincéis. Ele, ali, meio maçã do pecado meio abacaxi. Mas aí a Luisa, que tava terminando um quadro, fechou os olhos de princesa, que tinha aberto só pra ele depois de sair daquela masmorra imunda, olhou de verdade e viu que tinha algumas coisas bem mais vivas ao seu redor.   Ok, a Luisa foi dar uma volta, conheceu outros caras que, aproveitando o kit de metáforas baratas que eu comprei numa liquidação, matariam um dragão por ela. Cortariam a grama do castelo, trocariam a água do fosso, sei lá. O que passa é que a Luisa viu que o Bernardo tava mais pra pangaré do príncipe do que pra príncipe. Era bonito – menos do que ela pintava, certeza. Era interessante, mas num contexto intelectual em que os museus chatos também são. E só era inteligente na hora que convinha. E na hora que convinha, nada.
Um dia, numa epifania de quinta categoria, Bernardo resolveu tentar conversar de uma forma mais, diremos... Tentou conversar com Luisa de uma forma menos... Ah, foda-se. Tentou conversar como gente com ela. Mas não conseguiu, porque de gente a Luisa tem pouco. E o Bernardo acha que tem muito. Então, veio a decepção com sua mágica e transformou a Luisa numa ridícula escrevendo contos as quatro da manhã, e o Bernardo... E o Bernardo? O Bernardo ela não transformou em nada... Ele já tinha fugido da conversa há muito tempo.  Além do que, tava tão desinteressante aquela altura que nem valia gastar feitiço.
Então caiu uma tempestade, e depois veio sol, arco íris, passarinho, tudo aquilo que vem depois da merda.  E a Luisa voltou a fumar e parou de pintar naturezas mortas, e passou a deixar as naturezas vivas a pintarem. Descobriu cada pincel... Do Bernardo teve um a notícia há tempos: disseram que estava fazendo figuração de banana numa fruteira de filme B.

sábado, 29 de janeiro de 2011



"Acho que a gente devia encher a cara hoje, depois a gente fala mal dos inúteis que se acham super importantes."

- Charles Bukowski - 



Hoje fiquei horas e horas sentada em frente a essa máquina que faz com que eu me sinta cada vez mais obsoleta. Além de não entende-la enquanto engrenagem, me coloca o mundo todo na cara, o mundo todo que eu nunca vi, que nem sabia que existia. E me enche de vontade de viajar. Por agora, viajo apenas na fumaça densa pairando por sobre a cama, totalmente desfeita em seus lençóis laranja, cheia de porcarias amontoadas pelo gato num canto. Ele também viaja, da maneira dele. Antes mesmo se debatia num sono convulso. Sabe-se lá o que estaria acontecendo ali. E eu, sinceramente, estava muito mais preocupada aqui.
Estava lendo algumas poesias que me enviaram, e achei uma merda. Ah, mas a fulana publicou um livro. Cíntia – digamos que se chame Cíntia – ganhou incentivos federais pra um montagem acerca de um texto seu. Ah, Bukowski, entendo quando dizia que odeia os POETAS. Estou aqui, sentada escrevendo um sábado à noite com a perna fodida a geladeira queimada sem grana sem comida sem sexo sem saco. E vejo uma escrota, de longos cabelos oxigenadamente platinados, dando entrevistas tão ridiculamente burras quanto seu livro. E enchendo os bolsos de grana. Enchendo o mundo de merda, e enchendo os bolos de grana. Mania de grandeza? Prepotência? Foda-se, gosto mesmo de criticar. E, porra, não escrevo como ela. Até por que se escrevesse daquela maneira não teria coragem de preencher um formulário que fosse, pra não correr perigo de soltar uma pérola. Mas os incentivos federais, veja só! Pra qual marajá será que ela deu pra ganhar aquele nariz novo e de lambuja um livro? Um livro ruim, por deus! Péssimo, nojento como um escarro daqueles bêbados de fim de noite.
Mais textos. Continuo me questionando quem publica essas porcarias. Que compra essas porcarias. Meu deus, que lê essa merda toda amontoada em letras após letras, formando aquelas frases me fazem duvidar da existência de um ser maior. Se eu fosse um ser maior, não permitiria esses assassinatos do bom senso.  Tenho certeza que já vi esse texto em algum lugar. Esper aí... Isso, certeza. Esse texto foi publicado antes mesmo dessa infeliz nascer. Mas ela foi lá, leu, entendeu tudo errado e acrescentou todos os erros que o original não tinha.  O público talvez nem se tenha dado conta da cópia, visto a qualidade dela ser infinitamente menor. A falta de coerência absurdamente maior. A vontade de morrer agora? Infinita. Essa escritora, que já não é a Cintia, então chamemos de ah, Bárbara – ah, ironia das ironias – tem um pouco mais de vinte anos, e um pouco menos de inteligência que o cachorro da minha vizinha, e três – nada menos que três – livros publicados, todos com grandes críticas. E eu aqui, criticando o texto com um copo de bebida amarga e o último cigarro entre os dedos.  Na merda, caro amigo, na merda.
Meu gato me fita do canto do quarto – sujo, cheio de roupas empilhadas e louça suja – como se tivesse pena da minha cara amassada e desgostosa. Mas é assim mesmo, caro felino, é assim mesmo. Vou acender outro cigarro e encher o copo dessa bebida barata que já está começando a me parecer boa. Quem sabe assim, esse texto também me pareça.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

(Im)presente

Eu queria uma festa hoje. Não pude dormir  pensando nisso.  Eu me devia uma festa hoje. E te devia o meu melhor. Se não a presença, apaixonada e tola, ao menos algo de tolo, como o calendário riscado desde aquele dia, ou todos os cacos de lembrança perdidos pela casa, aquele caderno amarelo cheio de declarações de amor,  ou mesmo esse bolo que fiz pra te comemorar sozinha.
Escolhi compenetrada a receita. Tinha de ser completa, tinha de te ganhar os olhos e a boca. Tinha que te fazer meu, por inteiro, por instantes. Tinha de ser uma delícia, assim como nós. Bolo de café trufado, doce na medida a te mostrar todo meu apreço. Doce como o gosto do teu beijo morando no meu céu da boca. Preso entre os dentes como o chiclete do Mautner.  Doce como o riso que escapa, entre esses mesmos dentes, a cada recordação caída do balão surpresa pendurado, subjetivamente pendurado acima de minha cabeça, onde jazem, escolhidas a dedo todos os pequenos relicários em que te transformei dentro de mim.
Discuto pacientemente os ingredientes com o moço da canção: bato os ovos inteiros? Me jogo inteira na massa ou me guardo para ser recheio? Junto à farinha – do desejo? – e misturo os ingredientes como se com isso me misturasse a ti, como num orgasmo unindo os corpos num instante curto e luminoso. A água do café borbulha, e fico assistindo a mágica que tinge o líquido e perfuma o ar. Um copo de café forte na massa, dois copos de café forte em mim. E a cada gole, tua presença me invadindo. O gosto que não é teu, o calor que também não te pertence. Maybe i’m just amazed,e   te pinte em cores vivas pela casa pra disfarçar o cinza lá fora, o cinza aqui dentro, as cinzas do resto. Raspo a tigela como se arranhasse teu corpo jogado nessa mesa cheia de farinha, num fetiche que me arranca arrepios e risos ao mesmo tempo.
Experimento o resultado como se desse um primeiro beijo: cheia de expectativas e água na boca. Amarga como eu, essa receita. Pesada como a tua falta, escura como o dia de hoje, que nasceu gris só pra me acompanhar na cozinha. Coloco açúcar, e experimento.  Acrescento mais saudade, mais baunilha e um pequeno pedaço de mim, e então levo tudo ao forno, para que cresça como cresce essa vontade dentro do peito.
Observo as chamas do fogão enquanto derreto o chocolate, que vai cobrir o bolo e teu corpo nas minhas fantasias. O cheiro adocicado invade o ar da casa que é pequena, mas abriga todo o tamanho da tua ausência habitando sons e silêncios. Preparo o recheio com a volúpia de quem descobre um corpo amado em meio ao sono, receoso de um despertar inesperado, mas tentado por aquele diabo meio Bukowski que vive nas insônias. A calda no fogo explode em bolhas como fosse lava incandescente, e me acende as entranhas que se contraem nesse corpo quente, no calor desta cozinha que agora abriga minhas chamas.
Danço  aquele blues pela sala, acompanhada do vazio entre esses móveis e espero o tempo passar.  Enquanto danço sozinha, deves estar comemorando em meio aos teus. Sorrio feliz pela perspectiva de um sorriso te invadindo, feliz também. Queria que me pudesse ver por pequenos instantes, apenas para que se percebesse em pedaços, ao ver quanto de ti paira aqui, nesse ar, onde Nina e eu te desejamos se liquefazendo sobre meu corpo morno, e me inundando inteira.
Bolo pronto, e a a casa rescendendo a solidão e nostalgia. Cortado ao meio, como tanta coisa por aqui, recheio com calma e sorrisos o bolo que fiz pra te amar em silêncio. Salpico as vontades todas guardadas dentro daqueles pequenos potes sem rótulo, e finalizo com todos os beijos que te daria se estivesses aqui, recheando esse bolo que hoje é só meu. Cubro com cuidado para que o chocolate fique uniforme, pois meu cuidado com esse bolo hoje é meu cuidado contigo, e busco os suspiros mais fundos no peito para enfeitar com capricho teu presente. Então, como uma viúva olhando triste os retratos da sala na penumbra, fico contemplando imóvel meus sentimentos ainda quentes.
Aqueço aquele café já ranço e me sento pra comemorar teu aniversário, para te desejar na distância todo o brilho que ainda não vês, mas que te acompanha calado. Sirvo mais uma xícara de café, e penso em quantos bolos estão sendo feitos a ti nesse momento, quantos já o foram e quantos ainda o serão. Não sei quem te será mais perto, nem quem te será mais caro hoje. E sinto pena de mim, que nem ao menos te contarei que, entre bolo e saudade, fizeste aniversário também aqui dentro de mim.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

***

A simples intenção
do teu seio rijo
fez com que dentro da blusa
fossem morar meus olhos.



*

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Verdejar


O vento me chama pra andar
soprando ares do mundo
meus pés semeiam desenhos
no pó das terras em que me planto.

Nessas noites férteis, essa lua nova
abro meu peito e fecho meus olhos
para que esse deus que mora em mim
descanse e pouse em verde morada.

Como a mulher e a paz
como um pássaro cruzando marés
o tempo adormece em sua cama de bronze
e a manhã renasce colorida de pensamentos.

Colhendo maduros meus sonhos
Recolho o escuro da noite sem medo
Pois sem espanto e sem nuvens
o sol habita em segredo meus campos.

Foto: Mônia R.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

         Analisava foto a foto o que pudera ter visto de tão interessante ao ponto de pendurar aqueles retratos todos pelas paredes do quarto, pelas paredes de si mesma. Analisava calma e friamente cada traço daquele rosto - misto de sarcasmo e inércia – que a encarava de volta. Os olhos escuros, a ausência de uma pinta em algum lugar que nunca soubera dizer. O sorriso, lindo e canalha, de dentes não tão perfeitos. Aquela barba acanhada, que sempre causara estranheza a Michelle, acabrunhada de cobrir a pele não tão branca como a dela, mas de um desbotado sincero.
        Com as fotos nas mãos, uma a uma, lia detalhes do corpo dele, daquele corpo que já não desejava mais. Ou talvez desejasse, não sabia ao certo. Afinal, era delicioso. Era mesmo?  O sexo era delicioso, desse fato nunca pudera fugir. Mas agora, ali, em frente aquele quebra-cabeça de retratos jogados pelo chão, muitos deles que nem lembrava onde tirara, ela reconstruía anatomicamente aquele homem que tão absurdamente amara. Cada pedaço de pele que tocara, nos eternos instantes em que se dava a ele com as mãos, e o tomava seu sem permissão. Engraçado, era como olhar um daqueles enormes cachorros de porcelana de antigamente: inquietante.
     Uma foto em preto e branco. Michelle sempre preferira o gris e as sombras para as fotografias. Recordava nitidamente de haver tirado aquela foto, do quanto o desejava ardentemente quando o fizera. Fechando os olhos, tentou buscar dentro de si o calor daquele desejo. Afinal, debaixo daquele monte de cinzas que ele deixara empilhado no canto, não seria surpresa restar uma lenha morna, tão morna quanto o descaso dos dois. Mas nem isso. De olhos fechados, o via colado na sua retina, manchado como um velho retrato pregado na parede úmida da sala de uma viúva eternamente enlutada. Quando os abria, o via num tom sépia, típico das coisas antigas guardadas nas gavetas bolorentas da sala de música de dona Conceição. Exato! Olhando todas fotografias largadas no chão da sala, era isso que sentia: como se ele houvesse sido coberto de bolor. Mofo ordinário. Ordinário como as escolhas banais que ele repetidamente tentava esconder dela, e que sem querer, sem procurar Michelle encontrava estampadas como manchetes sensacionalistas. Estampadas na cara daquelas palavras sem jeito, no timbre hesitante e fugidio da voz, nas canções escritas por outrem. Nas canções não cantadas. No mutismo renitente escapando dos dedos. Naquelas sabidas carências nas madrugadas em que não tombava amortecido na cama, ou não a dividia com ninguém. Como Michelle sabia dessa carência estúpida, que o jogava às companhias mais insípidas, às mulheres mais ocas, ao breve conforto de se saber na carne de alguém. E que o tornava, a seus olhos, cada vez mais desinteressante.  E ela que esperava tanto! Que se esmerara em guardar em frames cada gesto, cada gosto, cada encontro. Ela que procurara tanto...
       Olhando do alto as fotografias – brancas pretas gris sépia veludo verde – constrói uma cena em tom de sonho: todas aquelas imagens voando, naqueles tons terrosos das folhas outonais, levadas por um sopro seu. Um sopro vindo do mais íntimo dela, vento de mar, de ressaca das marés de inverno. Levando pra longe a imagem dele – tão gasta, meu deus! - e lavando os olhos dela.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Bóris

Me assaltou de repente. Acordei às cinco da manhã em crise. Frenética. Em meio a um prato vazio e um livro aberto, com um garfo entre os cabelos. Meio bêbada, é verdade. Mas apenas meio. Insone por inteiro e meio bêbada me vi na primeira crise ortográfica do ano. Forte, tão forte que me tirou do sono dos justos. Ok, justos não seria a palavra exata nesse caso. De qualquer forma, eu que dormia placidamente embriagada entre os escombros da noite anterior, que terminara por me colocar na cama cedo, acordei de sobressalto, sentando de imediato. O motivo deste despertar repentino: a palavra sobrancelha.

Sim. Desde a crise ortográfica de 1999, causada pelos – inacreditavelmente plausíveis – comentários de Dona Lidia, antiga empregada da família, acerca dos termos pírula e célebro não me recordava de um despertar tão aflito. As justificativas de Dona Lídia me assombraram por meses. Eu fechava os olhos, estavam às palavras ali, dançando. Um mágico balé de pírulas, de todas as cores – eu gostava muito das verdinhas – no teto do meu quarto. Pírulas para o célebro. Quando ia tomar café, lá estava Dona Lídia e seu conselho matinal: café faz bem pro célebro. E eu emborcava mais uma xícara, na esperança de escapar das pírulas para Alzheimer. 

Anos depois, já sem os sábios conselhos de Dona Lidia, tomava café quando tive um sobressalto: alguém roubara o ene da minha mortaNdela. Eu jazia com o pão, cortado ao meio, na mão. Mortadela. Mortadela! Quem foi que roubou o ene que estava ali? MortaNdela. MortaNdela! Dona Lidia, cadê a senhora nessa hora, pra me explicar o que está acontecendo? Era tão simples: vó, faz um pão com mortaNdela pra mim? Nunca mais! Acabaram pra sempre com o meu regalo infantil. Roubaram a magia das minhas tardes de infância, roubaram o ene que recheava meus pães nas férias. Foi o fim de uma era. Hoje  em dia já não como mais carne, mas mesmo que comesse todas as mortadelas do mundo, nunca preencheria o vazio existencial deixado pelos enes que nunca existiram nos meus sanduíches.

Hoje, na primeira crise ortográfica do novo século, o fantasma era semelhante, de consoante vizinha. Sobrancelha. So –bran-ce-lha. Cadê o eme? Cadê, meu deus? Dona Lidia, cadê a senhora?  Eu me sentia órfã, desolada. Então aquele tufo de pêlos, desordenadamente estacionados em cima dos olhos, não servia para nada? Eu gastara horas da minha vida fazendo a soMbrancelha – sim, porque ela ainda era soMbrancelha – a troco de nada? Então ela não fora sabiamente preservada pelas alterações evolutivas da raça humana para fazer sombra aos meus olhos? Era apenas umas sobra? Sobra-celha?Nada mais fazia sentido. Eu não conseguia acreditar! Desolação. Eu rolava na cama e passava a mão pela testa, murmurando ‘soMbrancelha... soMbrancelha... quero as minhas soMbrancelhas de volta... onde a lógica, onde a ordem natural das coisas?’ e, baixinho, agarrada ao travesseiro, chamei por Dona Lidia até adormecer. E sonhei com um russo, chamado Bóris, de vastas sobrancelhas.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Seis

- Truco!
- Venha, sujo!
- Truco, lixo!
-  Seis, tento!
E eu, nem tento. 

Na mesa ao lado, protestos do que perdera. 
O triunfante silêncio do vencedor. 

O jogo imitando o cotidiano. 
O jogo do cotidiano. 
Onde eu jogo esse cigarro? 

- Seu Valdemar, outra dose por favor.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Insectae

Debaixo daquele pé de abacate
- onde vivia uma bromélia -
ficou a pequena a brincar com as aranhas.

Hoje,
alimentando as minhocas da minha cabeça,
senti saudade e resolvi buscá-la.

Não a encontrei.
As pulgas atrás da minha orelha tinham razão:

já virara borboleta.

Foto: Mônia R.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

07h29m

Tô enjoada desses lençóis vermelhos, desse pijama cheio de flores, do meu cabelo comprido. Enjoada do quarto atulhado de móveis inúteis mantidos por um ainda mais inútil apego sentimental. Tô cheia do saco da cor desse esmalte, dessa bagunça no canto, da falta dos meus vinis, do lado direito do fone de ouvido que não funciona, do meu lado esquerdo que não funciona. Tô cheia da alça daquele sutiã lindo, que me machuca. Das malas ainda não desfeitas, daquela pilha de louça suja na pia, da pia, dessa casa. Dessa picada de mosquito na minha coxa que coça há dias, dos mosquitos, dos dias. Dessa bicicleta atravessada no corredor porque eu não sei andar. De não saber andar de bicicleta. De ter rasgado minha calça nova naquele tombo.  Do meu joelho que não cicatriza nunca!  Das cicatrizes todas que não saram nunca. De todos esses tombos...
Tô cansada desse tédio, de dormir sem sono, e acordar com ele. De acordar sozinha. De dormir sozinha. De chorar sozinha, escondida, quando sinto saudade da minha gente. De querer demais voltar pra casa quando estou com eles. De nunca estar com eles. De nunca estar com ninguém. De não saber estar sem ninguém. E muito menos com alguém. De não ser alguém que eu goste muito de ser. De gostar de tanto ti, de muitas vezes não gostar nem um pouquinho de ti. De estar pensando nisso agora. De estar pensando em ti agora.  De estar pensando. De não gostar de nada aos sábados de manhã.  
Tô cansada dessa insônia intermitente dilacerando peito e pensamentos.

Foto: Mônia Rommel

 São exatamente 07h29min da manhã de um sábado ensolarado, e eu, que estou desperta desde as cinco horas, percebo que ainda não acordei de ti.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

D
   E
      S
         C
             I
                          
                    a escada
                                                                                        lá para os fundos

para poder gritar mais  alto

domingo, 9 de janeiro de 2011

Com tinta da China



da série Aquarelas

***


Ficava sentada por horas na cabeceira da tua ausência, ninando as palavras que eu gostaria que visses batendo as asas enferrujadas pelos ares. Embalava toda aquela chuva que me brotava do teu resto, e que penso que enferrujava minhas palavras. Eu acariciava os teus cabelos - teias de aranha por sobre a saudade – e contornava todos os traços do meu travesseiro insone. Desenhava, horas perdidas, uma aquarela em tons pastéis do teu corpo, decorado a dedos leves, como artista empunhando bico de pena e tinta da China. Mas nunca havia preto. Apenas tons pastéis. Uma aquarela em tons pastéis, tão apagada quanto a nossa chama.  



***


O Homem Nu

Lia Sabino no ônibus quase vazio. Absorta que estava na insubordinação do Tenente Bruno, nem dei por ela que me olhava, do  banco imediatamente a frente. Na casa dos setenta anos, franzina – como toda senhora angelicalmente enxerida – e com notáveis problemas de visão ela me olhava com irritada indignação. Inconformada com meu despeito, disse baixinho a passageira ao seu lado:
- Olha só essa menina... Lendo um livro de sacanagem tão cedo! E na frente de todo mundo!
Apenas então eu percebera. Ela fitava horrorizada o título, em amarelas letras garrafais, na capa do meu livro: O Homem Nu.
Desculpa Sabino, mas aquela gargalhada foi mesmo pra velhinha.


sábado, 8 de janeiro de 2011

E eu que nem gosto da Jovem Guarda

Ele era o maior galã. Ou pelo menos achava que era. Cruzava a rua com aquela cara de Erasmo Carlos dos sessenta, vigiando a minha janela. Eu, segurando sempre a mesma infantil xícara de café, naqueles horríveis pijamas ganhos no Natal, devolvia a cara de Wanderléia nos sessenta. Nos sessenta anos, inchada de boletas e birita.
Descabelada, descalça e sem a mínima vergonha na cara, eu ia até a porta e acendia um cigarro, com despeito mesmo. Desafiadora, do tipo ‘acordo feia mesmo, o que é que tem? ‘ eu me prostrava no umbral da porta e ficava esperando ele descer a rua. Galã, já disse né? Ao menos ele achava.
Uma manhã daquelas que não deveriam amanhecer, conversava com minha ressaca sentada em frente à janela, curtindo uma réstia daquele delicioso e tão raro sol dos invernos daqui. A xícara, a mesma de sempre. O pijama, outro, belamente sobreposto por um daqueles roupões lindíssimos que sua tia avó usaria. A cara, em contrapartida, nem sua tia avó usaria. Nem a minha, e olha que a dela não é lá grandes coisas. Com o cigarro grudado na boca, seca e com gosto de cinzeiro sujo, eu falava sozinha como todas as manhãs, observando os passarinhos comendo o pão que eu não conseguira comer. Ressaca, tem dessas. Já estava quase deitada no quintal, numa posição digamos assim, cubista, quando ele passou. Tá atrasado, pensei comigo. Ele chegou mais perto e respondeu: tô mesmo. 
Olhei ao redor. Esse cara tá louco. Tá falando com quem? Será que ele ouviu meu pensamento? Como que ele ouviu meu pensamento? Vou mandar a merda. Ô meu, tá falando com quem?
- Com você oras.
- E como é que tu sabe o que eu tava pensando?
- Pensando? Você acabou de gritar ‘ Tá atrasado!’.
Olhei pra ele com aqueles olhos de ressaca - e não aquela ressaca poética dos olhos de Capitu. Olhos de quem dormiu mal mesmo, tá puta e quer vomitar. E vi que ele ainda estava parado no portão, brincando com a caixinha de correio – wtf? – e me encarando. Galã, ele achava. Meio Erasmo dos sessenta. E eu, nem sentar conseguia. Devo estar bêbada, e não de ressaca. Tô falando e acho que tô pensando. Definitivamente bêbada. Então, porque que raios que eu tô tomando café? Que desperdício de pó de café. De birita. De grana. Ah, tu ainda tá aí? Entra, senta aí no chão, faz um drinque pra mim. E o Erasmo ria, do portão. Tô falando sério porra, entra.
Joguei a chave, que estava no bolso do roupão, junto com um cigarro despedaçado e uma bala de uva. Detesto balas de uva. Engoli a náusea e dei as instruções pra abertura do portão. É, o Erasmo ali não era lá um gênio, vamos combinar. Mas era galã. Sentou na grama e acendeu um cigarro. Acendi um também, apesar de já estar com um aceso entre os lábios. Completamente bêbada, às dez da manhã de um belíssimo sábado. Belíssimo saco, isso sim. Como é que a noite passou tão rápido, como é que eu vim parar em casa? Pra quem será que eu dei ontem? Será que eu dei ontem? E ele ali, na grama, fumando e me olhando.
- Tô falando isso, ou pensando?
 - Tá falando, baby.
Baby. Baby? Baby??? Quem o tremendão do Paraguai tá pensando que é, pra me chamar de baby? Tá na nóia, ou é totalmente desprovido de senso, mesmo?
- Escuta aqui, bicho... Tá achando que é quem pra me chamar de baby?
 - Não sei o seu nome, quer que te chame de que? De linda? Com esse visual aí fica difícil...
 Olhei pra ele de novo, com aqueles mesmos olhos, que descobri não serem de ressaca e sim de embriaguez pura. Analisando friamente, tava até meio difícil de focalizar. Mas apertei bem as pálpebras e olhei praquela cara cinicamente bonita. Ele até que era meio galã mesmo, sabe. Mas tinha tirado com a minha cara. Foco, mulher, foco! Responde a altura, com um monte de palavras que ele não vai entender, manda embora, joga a pantufa na cara dele. Não nessa ordem, senão era uma pantufa.
- Entra ali na cozinha e trás uma dose pra gente.
Foi essa a resposta a altura. Quanto orgulho de mim mesma! Genial, nessa manhã ensolarada de sábado, com um cigarro apagado na boca e um queimando sozinho apoiado na orelha da pantufa. Um cachorro, a pantufa. Dois, na verdade. Bêbada, bastante. Cadê o Erasmo com o copo?
 - Ô tremendão, tá destilando a parada? Ou tá fuçando a minha gaveta de calcinhas, seu doente?
Coitado, não sei nem o nome dele e já vou ofendendo. Gostei dele. Não colocou gelo no gim, até porque não tem, mas não colocou e isso que importa. Gostas?
- De quê? De gim ou de você?
 - De gim, né gênio.
 - Sempre te escuto falando sozinha quando passo aqui. Sempre me perguntei se você era genial ou só maluca, ou se tá sempre no barato.
 - Os três, tremendão. Os três.
- Sempre vejo você e o seu gato. Mora sozinha?
O que é que esse intrometido tá pensando? É da polícia? Inquérito agora então. Pega o formulário, Pacheco!
- Ahan. Ninguém dura muito aqui em casa.
Porque é que eu tô conversando com o Erasmo? Não quero conversar. Quero me dissolver, quero virar bolinha de sabão. Deve ser legal ser uma bolha de sabão né? Ficar voando, refletindo as coisas, cheirando bem, sem precisar trabalhar nem pentear os cabelos e de repente PLOFT! Estourar e zás.
 - Gostei de você.
Quem disse isso? Ah, o Erasmo. Verdade, ele ainda tá aí. Bem galã, ele. Rindo porque eu quero ser bolha de sabão. Olha pra mim, Erasmo. Tô deitada no meio da sujeira do meu quintal, com um roupão cor de merda ao meio dia de um sábado. Ser bolinha de sabão, pra mim, seria o maior lucro. Você ia gostar de mim se eu fosse uma bolha de sabão? Ia parar pra conversar comigo? Traz mais gim pra tua amiga bolinha de sabão aqui.

Não lembro como ele foi embora. Não perguntei o nome dele. Não disse o meu. Nem se ele foi embora naquele dia. Sei que na segunda feira, quem estava atrasada era eu. E na caixinha do correio, havia uma foto do Erasmo Carlos – nos sessenta – com uns rabiscos atrás dizendo: ‘Baby bubble, me avise quando for estourar. Beijos, Erasmo. ‘ 

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Quanto

Li o poema que me escreveu
Quanto de ti não está ali?
Quanto dali não está em ti?

Guarda essas tuas palavras:
Não tem rima, não tem rosto.
Tuas palavras, assim como tu, não tem gosto.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Como diria Noel

Com a água do banho ainda – morna - no corpo
Com o corpo liquefazendo meus desejos junto dela,
E os pingos surgidos contornando peitos e pele
Eu deitara na cama pra te escutar.
Mas, como diria Noel,
 - Meu Deus do Céu, que palpite infeliz!

Tão infeliz em cada palavra dita quanto nas que não sabes dizer,
Juntou verbos incabíveis com adjetivos que não me pertencem.
E eu levantara da cama surda de ti.
Preferi ouvir a chuva lá fora – serenamente verão;
Se misturando com as gotas daqui de dentro.
Elas, por certo, me conhecem melhor que você.

Tela

Muda
de espanto preto
 - sem branco -
nos assistia inerte a tela:

nunca houvera tamanho amor
passando nela.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Sonetos incompletos I

Naquela festa,
Escrevi mil sonetos ritmados ao som da pulsação inconstante
Do meu peito.
Poesias de amor, dedicadas ao meu bem querer.

Hoje, bem queria queimá-las
Aspirá-las junto à fumaça do meu cigarro.
Fazer delas o meu cigarro.

Mas nem pra fumaça você presta.

Você não tem métrica
Não cabe em nenhum soneto
E ainda deixa minha rima pobre.



A dobrinha.

E eu estava sentada à mesa, calmamente, tomando aquele café ruim quando ele se sentou a minha frente. A mesa, que era de vidro – linda por sinal – deixava que entrevíssemos um ao outro de corpo inteiro, apesar de sentados separados por um móvel. De vidro, mas ainda assim, um móvel.
Ele, bonito da forma que sabia ser: calças sempre um pouco mais compridas que deveriam, pisadas pelo All Star que só trocava por chinelos de tira quando fazia muito calor; aquela infinita coleção de camisetas lisas e os cabelos desgrenhados. Bonito.  Como só ele sabia ser, mas bonito.  E seu cheiro me alcançava ali, do outro lado da mesa de vidro – linda por sinal – que tinha o formato de um triângulo. Estranha forma, estranhos nós. Já o cheiro... O cheiro eu conhecia, ansiava, e me invadia os pulmões como a primeira tragada de um cigarro.
E eu ali, com o elástico da minha meia – que miraculosamente não era branca, e sim estampada de florzinhas vermelhas. Gosto de pensar nelas como boninas, mesmo sabendo que não são flor alguma, uma mera representação barata do formato apenas - aparecendo. A calça jeans, apertada, e uma blusa que deixava meus seios a mostra, mas em contrapartida, ressaltava todo o resto que gostaria de esquecer. Tudo isso mergulhado na imensa xícara de café – ruim – a minha frente.
Por descuido, levanto um instante os olhos e caio no poço dos olhos – irônicos fundos lindos – dele, que inicia um diálogo com a pequena parte de mim que boiava acima do café.
 - Adoro quando deixa o elástico da meia aparecer- diz ele sorrindo. Ainda mais quando abandona as irritantemente sanitárias meias brancas.
 -  Sabe que isso só acontece por que minhas pernas são longas demais para as minhas calças, retruco sem tirar os olhos do café. E sabe o quanto odeio isso.
 - Ah... Pensa bem. Mulheres de pernas longas não têm alma, me disse ontem o Led. Assim como você.
Levanto os olhos do café e vejo a cara dele,  bonito como só ele sabe ser, me olhando com um sorriso sarcástico. Lindo, como a  mesa que nos dividia, mas morbidamente sarcástico. E mais uma vez, mergulho no café. Ruim, e agora já frio.
Ele me analisa, pela mesa de vidro, eu posso ver. Percorre meu corpo,  da meia estampada de flores até a pequena presilha que uso nos cabelos, que eu adoraria que nesse momento me cobrissem o rosto. E lá vem outro comentário. Pressinto as palavras antes que elas deixem aqueles lábios – ah, aqueles lábios aqui mais perto do meu café  - para cruzar o espaço ocupado apenas pela mesa -  de vidro -  e minha respiração entrecortada.
 - Adoro essa dobrinha que sua barriga faz quando senta, baby.
Sirene mental. Bén bén bén.  ‘ Essa dobrinha’  é AQUELA DOBRINHA.  Aquela, temida, repelida, detestada com todas as forças. Já não bastava tirar sarro das minhas meias, ainda me chama de gorda. Gorda não, barriguda. E quando, com as bochechas já vermelhas, e  os olhos crivando chispas, digo a ele que sei muito bem que estou acima do peso, ele – lindo – me diz que não, que gosta do meu corpo exatamente assim, com as pernas longas e aquela barriguinha, ali, no lugar onde deveria estar. E me chama de fofa, descaradamente, mesmo sabendo a ira que essa palavra me desperta vinda dele. Quando começo a   abrir a  boca para mandá-lo  à merda,  se debruça sobre a mesa e puxa meu lábio inferior, segurando-o entre indicador e polegar, dizendo:
- A única coisa que gosto mais que a dobrinha da sua barriga, que eu adoro ver, é esse beicinho que faz quando se sente acuada. 
E, soltando o meu lábio, percebe o sorriso que começa a  brotar em minha boca, e contorna a  mesa  - de vidro, linda – e  se  abaixa ao meu lado.
 - Desculpa, mais uma vez menti pra você...
Meus olhos saltavam de dentro de  mim pra dentro dele com a   velocidade de um   impulso elétrico, e começavam as chispas novamente, quando ele completa  a frase:
 - ...o que mais adoro em você é essa curva no seu sorriso, que contorna todos os obstáculos que cismamos em criar.
E me beija – lindo como só ele sabe ser – transformando o meu sorriso em dois.

domingo, 2 de janeiro de 2011

E eu que tentava de todas as maneiras

Eu pinto de vermelho os lábios e  os olhos de nanquim
Como gueixa

Coloco aquele salto que não comporta sequer meu andar
Como trouxa

Uso aquele vestido lindo branco curto que atrai olhares
Como vaidade

Nada adianta.
É você o nome da minha saudade.

War(m)

De que adianta, nesta vida, acreditar? Em quê adianta nesta vida acreditar?  De que adianta essa fé em algo, ou alguém, se na noite interior - da alma -  os gritos voltam, frutos de um eco de frias paredes?
A desilusão é como um fel: envenena o corpo e tinge as lágrimas de dores seculares, que se repetem em ciclos de perdas sem fim. Perdemos tempo, perdemos pessoas, perdemos a nós mesmos. E o que se ganha com isso?

Vazio.

A solidão não é estar sozinho, e sim em vã companhia, que rouba o silêncio e nada têm a dizer. Mastiga os silêncios e cospe claustrofóbicas frases banais. E grita, e briga e luta sozinho contra algo que a muito já o venceu... E nos arrasta para o combate com entusiasmo febril,  para ao fim, ter o egoísta alívio de dividir as dores e as culpas,  como se fizéssemos parte dum falido exército marchando rumo ao eminente fracasso. Ou ao nada.

E eu repito, de quê adianta?! Se todo esse lamento fosse bálsamo, poderia consolar ao menos aos que ferimos nesse combate e ainda assim não desistem de nós. Não desistem da - já perdida? - batalha.

E a guerra, ah, essa sim, mal começou. 

sábado, 1 de janeiro de 2011

Encruzilhada

E a vida segue. Cada vez mais filha da puta.

Acabaram os fogos, sobrou a louça suja na pia e a decepção de se ver no espelho exatamente o mesmo de ontem. Cadê o ano novo cheinho de novidades? Não era ele que os fogos de artifício anunciavam ontem? E aquela champagne, barata, que deixou só o gosto nojento grudado na língua, não era pra brindar esse ano novinho em folha?
Não uso roupas novas no Ano Novo. Nada de calcinhas coloridas. Sem nenhuma, talvez. Não dou cinco pulinhos pela fartura do irmão. Apenas bebo pra comemorar. Na verdade, beberia de qualquer forma. Bebo pela vida vazia que seguirá mesmo depois de todos os brindes e abraços.  Aquela vela com os nomes é a única coisa a que me presto, como uma simbologia de que pretendo ser melhor no novo ciclo. E nunca o sou.
Mesa farta, cheia de coisas que ninguém gosta - mas vejam só! Simbologias de novo: há de se comer leitão, que fuça pra frente, nunca – bem entendido!- nunca aves, que ciscam. E amanhã teremos frango no almoço. Incoerente? Imagina. É ano novo, minha gente! Lentilha comida nas exatas badaladas da meia noite, pra trazer dinheiro. Vem um coroa milionário no pacote da lentilha? Sabe que nunca reparei?!  As três uvas, cujos grãos guardados no papel laminado da champagne devem estar o ano todo na carteira.  Pra que? Agora dá pra pagar aluguel com grãos de uva? Acho que já estou bêbada, e a festa parece acabar. Tchaus distribuídos a sorrisos mais falsos que o do Silvio Santos, e a mesa esvazia.
Vamos todos para nossas casas continuar nossas vidas equilibradas num frágil fio: o drama. É absolutamente imprescindível dramatizar. Você pode ser um mentiroso, viver uma vida imunda de trapaças, pode não ter caráter algum. Pode ser mesquinho, pode ser covarde, pode iludir, enganar, e tudo isso com aquele sorriso pérfido por dentro.  Mas, pelo amor de Deus, minta quando não estiver sozinho. Minta pra conservar os laços.

E a vida segue, e ela sabe. E vai andando até encontrar outro caminho.



Ele, nunca vai saber.