quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

***



Eu pintei os olhos de verde logo cedo.
Tentei de algum jeito colorir o dia
- azul lá fora, é verdade –
Que aqui dentro teimou em estar cinza.

Não adiantou. 
O verde ficou lá no espelho, grudado como folha pendida, esperando outros olhos.

Uma pena.

Vai ver que meu olhar outoneceu.



quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Animada





Eu pensava, enquanto lia as notícias frustrantes do jornal, que nada me apavora mais do que quando alguém diz “estou desanimado". 
Se penso na etimologia da palavra – a ausência, a negação da ânima - me divido entre a pena e o pânico. Que tipo de ser é que se posta frente a mim? Que espécie de corpo vagueia por aí, desabitado de alma? Carcaça oca, o que faz pelo mundo? Se andando sem rumo não sei, mas sem alma? Penso que sem dinheiro, a gente se vira. Sem fé, a gente se agarra ao que der. Agora sem alma, amigo? Concha vazia, balão murcho, caixa de fósforo cheia de palitos já queimados. Me diz: serve pra quê? Vai pra onde? Fazer o que sem alma?
Fico sempre com medo: e se esse infeliz, vazio de estofo, cheio de lamento e cinza, resolve me dar um abraço e leva minha alma – pequena, menina, quieta no seu canto – embora com ele? Ele leva meu ânimo, eu fico des. Desamparada, desesperada, descrente. Por isso cruzo os braços, agarro a alma adolescendo e sorrio pra ver se os meus dentes a mostra espantam a falta de vida parada ali do outro lado.
Engraçado... do outro lado de que? Que alma maluca, perdida, sem teto há de habitar um corpo abandonado pela sua alma original? Deve ser um corpo cheio de goteiras na cuca, cupins pelo peito ou mesmo ratazanas – daquelas com rabos grossos e olhos vermelhos brilhantes assustadores como as dos desenhos – escapando pela boca, narinas, olhos. Casa velha pra uma alma nova, fresca, pulsante. Talvez uma alma mendiga, que vague em busca que um prato qualquer de atenção, ainda possa fazer um bom proveito. Quem poderá saber?
Eu continuo parada entre a pena e o pânico, agarrada com unhas e mente na minha alma tão jovem, torcendo pra que também ela não resolva fugir de casa.




domingo, 28 de agosto de 2011

Duyung


  ou Peixe mulher      




       Eu te amo, dá pra entender? Sei que é difícil se acostumar com meu jeito, bagunçado por dentro e por fora. Sei também que é difícil agüentar essa minha forma crustácea de lidar com a vida, saindo estrategicamente quando fico de saco cheio, ou simplesmente me recolhendo e recusando qualquer contato. Mas eu te amo.
        Eu te amo. Te amo e me sinto presa, te amo e me sinto livre, te amo e te sinto, te amo e já não me sinto mais. Teu amor roubou meu espaço vazio, encheu de outras tantas coisas não minhas, e outras tantas coisas só minhas. Tantas coisas. Encheu. Preencheu.  Transbordei . Só que acontece que agora ta fazendo falta o espaço, aquele, que ficou tanto tempo vazio. Era quase como um casulo, onde eu podia me refugiar e me transformar em paz, em qualquer coisa que quisesse. Que soubesse ser. Ou que quisesse aprender a ser.
       Mas agora sou tua. Já não sou mais exclusivamente minha, já não me namoro mais em completo silêncio, pois te ouço aqui dentro todo o tempo. Não me entenda mal, gosto tanto da tua voz ecoando por aqui... É que eu preciso do silêncio, compreende? Preciso do espaço, preciso da falta, preciso do não: não ter, não ver, não falar e não sentir. Direito ao não querer. E, mais uma vez, não me entenda mal. Te quero muito, te quero tanto, te quero perto. Apenas não te quero sombra. Te quero luz, como o abajur velho que voltou a funcionar naquele dia.
     Sei que somos diferentes. Aceito. Gosto disso, a bem da verdade. Gosto de ser mais fluída, e te sentir mais fogo. Somos assim, naturezas opostas insistindo na convivência dentro de uma redoma criada pelos nossos sentimentos. Tudo bem, redoma soa forte, soa claustrofóbico. Concordo. Vou explicar melhor: to me sentindo como um peixe beta, esses de aquário, sabe? Posso ver o universo todo ao meu redor, mas fico nadando em círculos, porque necessito daquela água. De novo, não se equivoque quanto aos meus sentimentos: eu preciso da água. Eu quero ver tudo, ser tudo e ter tudo, mas quero a segurança do meu aquário, sabe como? Então: você é minha água. É de você que vem o meu oxigênio. É que eu só queria tomar um pouco de ar.Eu te preciso, nunca me passaria pela cabeça negar. Mas eu to precisando tanto de mim por esses dias...
    Tudo que eu queria era que entendesse, vez por todas, que amor se demonstra de milhares de formas: desde a cebola cortada em pequenos cubos a outdoors em via pública. Não sei demonstrar amor do teu jeito, mas sei amar. Do meu jeito do avesso, com os lençóis bagunçados e o cinzeiro cheio, e a cara de quem virou a noite no bar. Do meu jeito quieto, que pensa enquanto assiste o mesmo seriado pela qüinquagésima vez, e que grita quando sente frio.  Meu amor grita também, mas não é com os ouvidos que se pode perceber. Está no ar, no meu cheiro quando acordo, no último olhar que te dou antes de dormir. Está junto com os nossos cabelos no ralo, nas escovas de dente que se encaram na pia. Naquele sache de creme dental que dividimos por falta de dinheiro. Está em mim, aqui, nesse corpo cansado e nessa cabeça incansável. Está naquela palavra feia, guardada num canto da boca, que eu não digo pra não ferir porque sei a dor de ser machucado. Está aqui, neste texto que me veio sem propósito e talvez nem leias. Tudo bem, meu amor,um dia eu compro um aquário bem bonito pra gente. Ou escrevo um livro e te coloco na capa.




sábado, 27 de agosto de 2011

Insânia

Para o seu governo, é ela quem me governa.




Bem dentro da minha cabeça mora uma moça 
Pelo vidro dos meus olhos, ela espia e se inquieta
Corre, blasfema e grita no céu da boca que já não mais sorri
Inútil tentar abafar seus clamores:
Ela  é um pequeno demônio louco
Escapa pelos sete buracos da minha cabeça pendida
E ri como se o sorriso não custasse nada.









quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Deslavada



da série Aquarelas

***




Desculpa,
tenho andado meio desbotada.
Coisa da chuva
do tempo
da vida.


Ainda sim, 
queria me tatuar no teu corpo.


sábado, 30 de julho de 2011

Feminino Abstrato

       



        Eu abro os olhos na cama e ela ali, do lado. Viro lentamente, de olhos abertos, e não posso conceber como ela passou por mim e se deita languida do outro lado, tragando um cigarro que cheira a incenso.  Eu deito na cama numa posição quase fetal, como se o ângulo dos meus joelhos pudesse afastá-la, mantendo tudo aquilo do lado de lá, fora das cobertas, fora de visão, fora.
        Mas não adianta, afinal, nunca adianta. Me responde: você já dividiu a cama com alguém que não queria? Alguém que não fazia sentido algum, mas estava inexoravelmente ali, sem que se pudesse negar o fato? Aquele cheiro, que você finge que não sente, mas ocupa travesseiro, cama, quarto, casa – e você segue se perguntando que diabos está fazendo da vida, assim: ‘O que diabos estou eu fazendo da vida?’
        Sabe o que quero dizer, não é? Pois é. O diabo é que ela dorme nessa cama desde o dia em que a deixei se deitar pra descansar um pouco. E não importa se desejo dividi-la com outra pessoa: ela topa. Diz que gosta de mim, que aceita dividir a cama. Que o lance entre a gente é muito mais profundo, que a ligação é – a esta altura dos fatos – impossível de ser desfeita. E enquanto calmamente explica isso, a malvada sorri. Aquele sorriso que brota na cara das pessoas quando elas sabem que tem razão, e que já não há o que argumentar. E eu acabo, como sempre, aceitando a condição de estar ao lado dela. Naquele regime dos padres, ‘pra todo o sempre até que a morte os separe’, ou coisa que o valha.
        Ela tem todo aquele charme, aquele mesmo, das mulheres fatais. Primeiro se senta do outro lado do bar, te olha de esguelha enquanto você escolhe um drinque, sentado sozinho esperando ninguém. E caso você se atreva a olhar em sua direção, rapidamente baixa os olhos e brinca com o copo entre os dedos, mesmo que nem goste de gim. Aí vem aquela caça pelos olhares perdidos entre as pessoas que transitam. Algumas noites depois, vocês já estão tomando um vinho e acabam virando a noite a esmo pelas ruas. Então, ela se torna sua. E você se torna dela. Não há mais limite entre os dois: você a detesta, mas precisa daquele sentimento. Você a adora. É sua musa. Para ela sonetos, para ela odisséias intermináveis de corações arruinados e poetas sofrendo em odes.
        Entende onde quero chegar? Eu não. Continuo olhando pra ela, que agora passou a fumar cada dia mais. Enrolada com Angústia entre as cobertas, escuto histórias tristes e choro até dormir. Ela me pertence menos que eu a ela, tornando-se o sujeito do meu ser. A despeito do que digam, o substantivo feminino abstrato nessa sentença sou eu.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Substantivo feminino

.






Não fui feita de sutilezas.


Por isso,
amor,
me deixa exagerar no teu corpo.





quinta-feira, 7 de julho de 2011

Haikai Bordado








a alma sonha
deitada entre 
corpo e  fronha






quinta-feira, 23 de junho de 2011

Melancholia






Minha qualidade de ser triste
não vem do Tempo,
não vem do clima,
não vem de ti.
Nem nunca virá.

É um vício
um estado de ser
de estar
Entrar dentro de mim
trancar à chave
apagar a luz
e me namorar em completo silêncio.






quinta-feira, 16 de junho de 2011

.







Horas brilho
Horas escuridão

Nasci meio mulher
Meio vagalume






.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Ocasional,






Foto: Mônia R.





Ocasional,

o fim da tarde
finda cedo.










Foto do quintal de casa, às 17:49 horas. Curitiba escurece antes que os próprios grilos percebam.

Vocálicas

*






gritei
em ditongos crescentes
pela madrugada inteira
o teu nome

insone
o músculo pulsava 
- ecoando no saguão do peito - 
espião de todos meus erros

cruel  desencontro  
entre(o)sono
meu poema é hiato:
voo.






*

terça-feira, 10 de maio de 2011

Como fossem meus dentes





Como fossem meus dentes
caindo um a um
vão pouco a pouco desaparecendo certas lembranças.


Minha carne sangra esquecimento.



sexta-feira, 6 de maio de 2011

Dourado



da série Aquarelas

***



        Sentada em meio aos lençóis anoitecendo em laranja neste quarto eu penso em ti. Em quanto te desejo, em quanto preciso da tua presença aqui. Dramaticamente, pateticamente, desesperadamente: pulsando em mim como um dedo que lateja, sim, doendo se preciso . Incomodando se preciso. Irremediavelmente se fazendo sentir.
     Na cabeceira da cama, os travesseiros parecem estar alvorecendo, e não se  despedindo   do dia, como eu. Parecem estar esperando apenas tua chegada para desabrochar as flores estampadas pelo leito, jogadas pelo quarto, despetaladas na minha lembrança. Flores mortas. Flores sem perfume, flores cheirando a papel velho e agonia. Tu me faltas, e então o outono chega: nas janelas, na árvore aqui em frente - que ainda tem aquele nome gravado -, nos meus lençóis. O outono chega em mim, me ventando por dentro e  derrubando lágrimas sépia.
           Tua ausência morena  tinge meus dias de dourado.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Morpho



Ou Seda azul, para ti.



Veio caindo
caindo
a pétala azul
até repousar na minha mão.

E eu que sorria flor
agora choro borboleta.






segunda-feira, 2 de maio de 2011

Dama Branca






Passara a vida sentada no jardim
Angelicalmente tingida de flores alvas
Com um beijo
De pêssego maduro
Pendendo do lábio

Esperava seu consorte
Vestida de renda branca
Tiritando de frio

Nunca soubera
Se inverno ou primavera.




domingo, 1 de maio de 2011

Futuro do Pretérito Imperfeito I

        


           
        Ás vezes sinto falta do teu jeito: arrogante, presunçoso e cheio de charme. Do jeito como me olhava nos olhos, sob aquela luz bruxuleante do fim da tarde, e parecia me atravessar como uma lança das Cruzadas perpassando um infiel. Eu, com a  eterna heresia queimando a carne, me sentia acuada, desvendada, apaixonada. Perdidamente. Perdida numa cidade não minha, nos teus caminhos tão próprios e nesses beijos não meus. A cada passo por essas ruas sujas eu via uma paisagem nova, e te descobria outro: a inteligência que me batia na face, rebatendo cada frase capciosa que me escapava por entre os dentes. Em você, eu gostava das idéias. Da forma como a teoria te escorria sumarenta nas conversas, virando depois polpa amassada na prática da vida. Mas como eu não era tua vida, e nem ao menos sabia se desejava pertencer a ela, pouco me importavam tuas práticas. Tua teoria me encantava, e de ti eu fazia um pequenino livro a cada noite que nos encontrávamos, num daqueles bares sujos onde começávamos heróicas peregrinações em busca de qualquer diversão superficial e barata, que nunca terminavam antes do sol nascer ou da bebida nos derrubar num lençol de motel de quinta categoria. Motéis que – segundo você – custavam menos que aquela garrafa de vinho argentino que eu escolhi pra te levar pra cama.
        Ainda hoje às vezes te levo pra cama, em meio a sonhos encharcados daquele mesmo vinho com que nos declaramos descaradamente nossos pra sempre por aquela manhã. Abuso teu corpo, com minhas unhas grandes de sonho, com meus dentes afiados, te enlaço com meus cabelos. Te possuo à margem, despudorada e impura. E então acordo santa, cada dia menos tua.







sexta-feira, 29 de abril de 2011

Péantepé





Mais um passo
e tudo posso
nos teus espaços.

Mais um passo
e então perpassas
os meus esboços.

Mais um passo,
e seremos nossos.




terça-feira, 5 de abril de 2011




Açucena
desmadrugada
molhada
de orvalho:
sou eu
desejando
beija-flor
na ponta do galho...




segunda-feira, 4 de abril de 2011

Meio tom



da série Aquarelas

***


Eu passara o dia em branco. Ou seria em preto? Gris, sombra, carvão... Qualquer cor que escolhesse não seria precisa. Eu hoje tinha a cor – a indescritível cor – daqueles velhos livros de escola que emboloram guardados nos porões úmidos. Eu própria era uma espécie de porão, onde entulhara tudo que nunca me permitira sentir, até que apareceras me abrindo janelas, soprando tua brisa entre as páginas já há muito fechadas.
E agora eu te esperava. Com aquela sensação de ter um coração extra, batendo pendurado na boca do estômago, pois tu vinhas e eu te esperava. E rapidamente começara a me sentir feliz, diante da espera daqueles olhos.
Com as mãos úmidas e um sorriso pendente do canto da boca, eu arrumara a casa, estendera as cobertas na cama – desfeita o dia todo – e passara um café pra espantar a ansiedade que latejava junto aquele coração acoplado ao estômago.  Embaixo da água do chuveiro, deixara todas palavras duras que conhecia, e guardara entre as pálpebras os olhares mais doces que conseguira. Cheirando a sândalo, refestelada entre as almofadas eu esperei e esperei. A cada luz de um automóvel qualquer invadindo a vidraça, eu fechava a revista que já folheara tantas vezes que nos cantos das páginas jaziam impressões inertes de meus dedos. Impressões que deveriam estar em ti, pelo teu corpo que eu esperava sentada na cama, perfumada e colorida.
Então entendi que não virias. Lentamente apaguei as luzes, desliguei o som e fechei as marcas que dedos que pintara naquelas páginas cheias de imagens e cores que eu nunca vivera, e nem creio que um dia o faça. O colorido ficara adormecido junto a tua ausência. Mais uma noite meio cinza. Meios tons. 
Meia noite. E, pela metade, eu.

Letras Vermelhas




        Coloco as mãos no bolso e as lágrimas para fora. O vento é gelado e me queima o rosto por onde correm imagens distorcidas, misturando o que foi e o que temo que nunca será. A realidade se mescla aos meus devaneios em rostos que imagino ver refletidos nesses vidros ao meu lado. Os carros passam, o trânsito pára, as pessoas andam como formigas carregadeiras indo e vindo para lugar algum. Entre elas fico eu, parada, fumando um cigarro na contramão da vida. Onde vão dar todos esses caminhos que todos percorrem?! Eu queria mesmo era parar, parar...

        Faço um pedido ao meu cílio esquerdo que caiu. O que quero agora é tão absurdo que nem o cílio acredita e voa. E quem foi que me disse que pêlos caídos realizam desejos?!

        Acompanho alguns insetos com os olhos, quebro um graveto com as mãos e a noite cai. A garoa não é mais fria que eu, portanto não me incomoda. Resolvo tomar uma atitude. Ou uma cerveja, o que eu encontrar primeiro. Andei tanto sem me dar conta que não sei exatamente onde estou. Grande novidade. Há muito já não sei onde me encontrar. O frio está cada vez pior, e meus dedos da mão doem. Decido tomar um ônibus.

        Gente. Que coisa feia são as pessoas. Sempre com suas caras forçadas, cansadas ou de uma alegria tão besta quanto passageira. Misturo-me a eles. Mostro a língua para uma criança que não cansa de me olhar, ela acha graça e ficamos fazendo caretas, a despeito da mãe e, creio que, do restante do ônibus acharem aquilo um absurdo. Queria mesmo é que as línguas daquele ônibus todo caíssem. Pelo menos parariam de vomitar palavras em vão.

        Gostaria tanto de deitar e conseguir dormir. Mas meu travesseiro não deixa. Fica segredando coisas cruéis nos meus ouvidos e me obriga a gritar para abafar sua voz. E é simplesmente impossível dormir com gritos na garganta. Levanto meu corpo, arejo minha alma e hasteio meus pensamentos. Minha melhor companhia é a tinta. Escrevo como um autista que repete o mesmo movimento contínua e loucamente.

        Se pudesse escreveria na tua cara com letras vermelhas: é você a palavra que me falta.

domingo, 3 de abril de 2011

Lupina



Nos teus olhos
- escuros como a noite que vimos dormir pra que viesse o Sol -

me perco.

Não conheço teus caminhos,
e por isso ando em círculos como um animal ferido.

Quem dera tivesse o brilho capaz de ascender estrelas!





quinta-feira, 31 de março de 2011




Ouvindo o barulho lá fora
pensei que era tua chegada.

Quem dera!
Era só minha vontade em revoada.






quarta-feira, 30 de março de 2011




Nessa manhã
densa
acordo mansa

flor da apaixonada insônia

somente para esperar o ocaso
e murchar
em tons violáceos
- confirmadamente perecível -
com vagar nos teus braços.




Foto: Mônia R.




terça-feira, 15 de março de 2011

    

"(...)     

    Foi um dia daqueles. Daqueles em que eu gostaria de ser qualquer coisa inanimada, não pensante. Menos um ovo, que segundo Quintana pode ser inquietante. Mas tava valendo aquela concha, que vejo pendurada, ou esse cinzeiro sujo aqui. Isso me lembra que tenho que comprar cigarros, e quem sabe um vinho bom, pra sentar aqui e escrever. Jogar tudo pra fora e ir organizando aos poucos. Hoje tomei um café pensando na minha gaveta de meias, toda bagunçada, onde se misturam coisas inúteis a meias sem pares, na pacífica convivência que o caos promoveu.  Acho que estou vivendo em meio a ela sabe? Na desorganização calmamente aceita, na ausência de sentido nas combinações executadas. Fico sentada, em meio a fitas de cetim e antigos bilhetes guardados, procurando algo que faça sentido: um par de meias iguais. Ou bastante parecidas, ao ponto de não se notar a diferença sem mais análises. Qualquer coisa que faça sentido.
       Mas vai caindo à noite e vai ficando cada vez mais difícil. Cada vez que o sol cai, a gaveta vai ficando escura e eu canso de procurar a escolha mais acertada, e saio com uma meia de cada par, pisando insistentemente entre o certo e o errado."

quinta-feira, 10 de março de 2011

Veja essa canção




Que lindo pôr do sol aquele
em que o laranja beijava o mar
e o mar lambia a areia
e areia acariciava teus pés,
que iam andando, andando ao meu lado
sem jamais me alcançar.

Mas isto tu não sabias
e me contava rindo dos idos anos que não vivera
enquanto os postes, tristes, olhavam com inveja a lua...

Foto: Mônia R.

Vermelho morte

        



        Fiquei sentado naquele banheiro minúsculo, mal cheiroso e abafado por horas. Não conseguia levantar. A incompreensão do que estava acontecendo me atordoava. Como sair daquele cubículo? Como levantar daquele canto, sujo, onde eu dividia meus pensamentos com a lixeira transbordante. Se fosse pensar bem, eu estava no melhor lugar do mundo pro estado em que me encontrava: na merda.
        Olhei para um papel de cigarros jogado no chão e senti vontade de fumar. Vasculhei os bolsos, e a única coisa que achei foi um rasgo do lado esquerdo. Pra ser sincero, nem me importei muito com o bolso. Meu lado esquerdo inteiro estava rasgado. Eu estava rasgado por inteiro, esperando apenas esvair em sangue até morrer. Deve ser morno morrer assim. Vendo a vida, vermelho morte, partindo aos poucos. O sangue jorrando no começo, carne arroxeada exposta e o líquido quente jorrando com velocidade e agonia. Depois, conforme a lentidão da hemorragia se aproxima apreciar a necrose da ferida, o cheiro metálico de sangue e um resquício daquele perfume barato e nojento impregnado na pele já sem cor, de veias murchas e não mais azuis. Eu já podia sentir o cheiro putrefato de carniça saindo daquele pequeno banheiro de bar: as pessoas tapando os narizes e reclamando do estado de limpeza das coisas hoje em dia. E eu morto, fedendo junto com os papéis da lixeira, com a camisa branca de botões ensopada de sangue e perfume, com um riso de escárnio, daqueles que nascem no canto da boca. Eu – morto e contente.
        Eu senti uma paz tão grande pensando nisso que até abracei a lixeira. Queria levá-la, como companhia, pra o lugar aonde bêbados inúteis e desprezíveis como eu vão depois que morrem. Não sei onde é, mas deve ter um cara chato se dizendo Deus e julgando cada copo já tomado em vida. E não deve haver nada além de sufocantes cubículos como esse, onde passaremos a eternidade sem cigarros e com perfumes vagabundos, esperando por uma dose que nunca vai chegar. Eu, pelo menos, levaria a merda toda como companhia. Eu começava a me afeiçoar àquela lixeira. Eu já gostava daqueles palitos de fósforo usados formando o desenho de alguma coisa que conheço, mas não sei identificar. Devo estar enlouquecendo. Pode ser também a falta de ar, pois não há janela alguma nesse banheiro. Há apenas eu, sentado abraçado com uma lixeira e a privada. Eu, a lixeira, a privada e o cheiro que já parece fazer parte de mim.
        Pensando no cheiro lembrei estar vivo. Eu já estava me acostumando à idéia da morte morna, da eternidade no banheiro namorando essa lixeira em algum lugar qualquer de qualquer universo – paralelo ou não. Mas estou vivo, e parece mesmo que alguém bate na porta. Não tenho certeza: um de meus ouvidos está colado à privada, e o outro anda meio ruim. Eu podia abrir a porta e descobrir, mas não posso levantar. Não posso abandonar todas essas idéias magicamente mórbidas aqui, nessa lixeira, e simplesmente seguir vivendo. E não lembro como a vida La fora é. Não faço idéia de quantas horas estou aqui dentro, e pra ser bem sincero, não sei nem ao menos de qual lugar este banheiro é.
        Batem à porta mesmo. Me apóio na maçaneta em busca de equilíbrio para levantar e a porta se abre. É a dona do bar, pedindo nada gentilmente que eu saia do banheiro pois o dia amanheceu.  Reúno minhas forças e minhas idéias e deixo o sangue vermelho morte espalhado pelo chão, junto àquele papel de cigarro e outros detritos. A morte morna, o confinamento eterno e a lixeira transbordante pela qual eu me apaixonara  ficam pra trás, embaladas pelo som da descarga. E eu, que agora seguro uma dose entre as mãos, fico aqui - sentado - mergulhado numa imaginária lixeira, cercado acalentadoramente por toda sujeira e o cheiro nauseante, me misturando a essa merda toda.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Covardia




Na minha intensidade já sempre sabida, fui ao fundo daquele armário buscar as melhores coisas pra te dar. 

Vasculhei as gavetas na captura de lembranças boas, laços de fita, pedaços de mim cheirando a poesia.  Juntei tudo da melhor maneira que pude e desenhei um cartão a aquarela. Não sou feita das entregas, mas quando encontro endereço, me remeto sem embrulhos, com a urgência dos presentes há muito guardados.

Na minha ingenuidade femininamente apaixonada, eu sentei e esperei. Esperei que da tua garganta escapassem palavras enamoradas, embotadas de sentimento. Pensei que sentisse. Pensei até que sentisse, e talvez, não mo dissesse. Então, acalentei a esperança de um beijo, um toque no cabelo, um pequeno gesto, um sublimado olhar. Mas nem em partes. Nem um meio olhar, um pedaço de sorriso, um esboço de aceno.

A mim bastava apenas uma pequena palavra, que nunca disseste. Uma voz em meio à madrugada, acendendo a luz do meu quarto e jogando as cobertas longe, para me ver nua refletindo os raios lunares que penetram à persiana, da forma como não o fizeste.  

E eu que pensei que sentisses.

Ou não sentes, ou tens coragem. E juro que não sei o que me parece pior. 

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Verde Amarelo Blue



Estou sentada na sala, fumando no escuro. Descansando da limpeza. De te varrer de vez. Lavar teus riscos pelas paredes.

Do mofo, formando desenhos de veludo pelas paredes amareladas, eu até gostava.  Agora os riscos, a me espreitar por todos os cômodos, até nos azulejos – por esses eu me sentia vigiada. Não, eu sentia que eles me acompanhavam onde quer que fosse.  Dentro dessa casa, não havia mais onde olhar para o vazio. As paredes – sem quadros – estavam rabiscadas com poemas, com desenhos rudimentares e palavras jogadas, assim, ao léu naquelas noites de porre.  Nos minutos preenchidos de conversas entre a tua lembrança e eu. Numa madrugada, sentada exatamente como agora, fumando no escuro, na poltrona em frente à porta - o farol dum carro iluminou a sala e eu vi um livro se formar pelas paredes. E a personagem não era eu.  Então entendi que ali dentro nunca estaria sozinha, com tantos sentimentos pendurados a grafite juntando poeira ao meu redor.  Eu precisava do vazio. De um pouco dele, ao menos.

Aos poucos fui esfregando as lembranças, sabe, ensaboando uma a uma. E fui lavando junto os quadros que o mofo criara pra ilustrar essa história. Aos poucos. Eu limpava tudo com a paciência de um colecionador. Aos poucos a casa voltava a ser amarela.  E de repente, eu havia te raspado das minhas paredes – junto com água sanitária e bolor.  Deu tanto trabalho apagar tudo! Meu corpo doía por inteiro. Foi preciso machucar  por inteiro, querer por inteiro pra ir até o fim.  Eu terminei a última parede. Olhei no relógio e já se fazia madrugada.

Apaguei as luzes e me sentei aqui, na poltrona em frente à porta. Ainda estou aqui, com meu cigarro, esperando que um carro passe e ilumine a sala.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Lagarteando


A felicidade é algo que flutua no ar.

Colorida e sonora como um devaneio onírico em que sou a personagem principal.
Em meio a fumaça - que nos separa -  me vejo sentada naquele velho cogumelo a divagar:

basta inventar verdades, acreditar no que nunca foi dito, dizer o que nunca interessou a ninguém?

Mas porque se preocupar com quem não vive?!

Afinal de contas, todos aqui somos loucos -
eu, você, o gato.


Todos, menos quem intenta ser.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Tolices



Inquietações...


Psicodelias
psicologias
psicopatias
ecoando nos ouvidos, 
confusões transbordando pelos olhos, 
sensações conflitantes eclodindo como sangue pelos poros: 
me faz sentir viva,
me mata de angústia.


Tenho faces
fases
frases 
diversas demais me habitando o corpo, 
como fosse macela 
de uma boneca de pano, 
que quando se aperta explode pelos vãos das costuras.  


Quietude.