segunda-feira, 4 de abril de 2011

Letras Vermelhas




        Coloco as mãos no bolso e as lágrimas para fora. O vento é gelado e me queima o rosto por onde correm imagens distorcidas, misturando o que foi e o que temo que nunca será. A realidade se mescla aos meus devaneios em rostos que imagino ver refletidos nesses vidros ao meu lado. Os carros passam, o trânsito pára, as pessoas andam como formigas carregadeiras indo e vindo para lugar algum. Entre elas fico eu, parada, fumando um cigarro na contramão da vida. Onde vão dar todos esses caminhos que todos percorrem?! Eu queria mesmo era parar, parar...

        Faço um pedido ao meu cílio esquerdo que caiu. O que quero agora é tão absurdo que nem o cílio acredita e voa. E quem foi que me disse que pêlos caídos realizam desejos?!

        Acompanho alguns insetos com os olhos, quebro um graveto com as mãos e a noite cai. A garoa não é mais fria que eu, portanto não me incomoda. Resolvo tomar uma atitude. Ou uma cerveja, o que eu encontrar primeiro. Andei tanto sem me dar conta que não sei exatamente onde estou. Grande novidade. Há muito já não sei onde me encontrar. O frio está cada vez pior, e meus dedos da mão doem. Decido tomar um ônibus.

        Gente. Que coisa feia são as pessoas. Sempre com suas caras forçadas, cansadas ou de uma alegria tão besta quanto passageira. Misturo-me a eles. Mostro a língua para uma criança que não cansa de me olhar, ela acha graça e ficamos fazendo caretas, a despeito da mãe e, creio que, do restante do ônibus acharem aquilo um absurdo. Queria mesmo é que as línguas daquele ônibus todo caíssem. Pelo menos parariam de vomitar palavras em vão.

        Gostaria tanto de deitar e conseguir dormir. Mas meu travesseiro não deixa. Fica segredando coisas cruéis nos meus ouvidos e me obriga a gritar para abafar sua voz. E é simplesmente impossível dormir com gritos na garganta. Levanto meu corpo, arejo minha alma e hasteio meus pensamentos. Minha melhor companhia é a tinta. Escrevo como um autista que repete o mesmo movimento contínua e loucamente.

        Se pudesse escreveria na tua cara com letras vermelhas: é você a palavra que me falta.

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