da série Aquarelas
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Eu passara o dia em branco. Ou seria em preto? Gris, sombra, carvão... Qualquer cor que escolhesse não seria precisa. Eu hoje tinha a cor – a indescritível cor – daqueles velhos livros de escola que emboloram guardados nos porões úmidos. Eu própria era uma espécie de porão, onde entulhara tudo que nunca me permitira sentir, até que apareceras me abrindo janelas, soprando tua brisa entre as páginas já há muito fechadas.
E agora eu te esperava. Com aquela sensação de ter um coração extra, batendo pendurado na boca do estômago, pois tu vinhas e eu te esperava. E rapidamente começara a me sentir feliz, diante da espera daqueles olhos.
Com as mãos úmidas e um sorriso pendente do canto da boca, eu arrumara a casa, estendera as cobertas na cama – desfeita o dia todo – e passara um café pra espantar a ansiedade que latejava junto aquele coração acoplado ao estômago. Embaixo da água do chuveiro, deixara todas palavras duras que conhecia, e guardara entre as pálpebras os olhares mais doces que conseguira. Cheirando a sândalo, refestelada entre as almofadas eu esperei e esperei. A cada luz de um automóvel qualquer invadindo a vidraça, eu fechava a revista que já folheara tantas vezes que nos cantos das páginas jaziam impressões inertes de meus dedos. Impressões que deveriam estar em ti, pelo teu corpo que eu esperava sentada na cama, perfumada e colorida.
Então entendi que não virias. Lentamente apaguei as luzes, desliguei o som e fechei as marcas que dedos que pintara naquelas páginas cheias de imagens e cores que eu nunca vivera, e nem creio que um dia o faça. O colorido ficara adormecido junto a tua ausência. Mais uma noite meio cinza. Meios tons.
Meia noite. E, pela metade, eu.
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