Eu pensava, enquanto lia as notícias frustrantes do jornal, que nada me apavora mais do que quando alguém diz “estou desanimado".
Se penso na etimologia da palavra – a ausência, a negação da ânima - me divido entre a pena e o pânico. Que tipo de ser é que se posta frente a mim? Que espécie de corpo vagueia por aí, desabitado de alma? Carcaça oca, o que faz pelo mundo? Se andando sem rumo não sei, mas sem alma? Penso que sem dinheiro, a gente se vira. Sem fé, a gente se agarra ao que der. Agora sem alma, amigo? Concha vazia, balão murcho, caixa de fósforo cheia de palitos já queimados. Me diz: serve pra quê? Vai pra onde? Fazer o que sem alma?
Fico sempre com medo: e se esse infeliz, vazio de estofo, cheio de lamento e cinza, resolve me dar um abraço e leva minha alma – pequena, menina, quieta no seu canto – embora com ele? Ele leva meu ânimo, eu fico des. Desamparada, desesperada, descrente. Por isso cruzo os braços, agarro a alma adolescendo e sorrio pra ver se os meus dentes a mostra espantam a falta de vida parada ali do outro lado.
Engraçado... do outro lado de que? Que alma maluca, perdida, sem teto há de habitar um corpo abandonado pela sua alma original? Deve ser um corpo cheio de goteiras na cuca, cupins pelo peito ou mesmo ratazanas – daquelas com rabos grossos e olhos vermelhos brilhantes assustadores como as dos desenhos – escapando pela boca, narinas, olhos. Casa velha pra uma alma nova, fresca, pulsante. Talvez uma alma mendiga, que vague em busca que um prato qualquer de atenção, ainda possa fazer um bom proveito. Quem poderá saber?
Eu continuo parada entre a pena e o pânico, agarrada com unhas e mente na minha alma tão jovem, torcendo pra que também ela não resolva fugir de casa.
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