Eu abro os olhos na cama e ela ali, do lado. Viro lentamente, de olhos abertos, e não posso conceber como ela passou por mim e se deita languida do outro lado, tragando um cigarro que cheira a incenso. Eu deito na cama numa posição quase fetal, como se o ângulo dos meus joelhos pudesse afastá-la, mantendo tudo aquilo do lado de lá, fora das cobertas, fora de visão, fora.
Mas não adianta, afinal, nunca adianta. Me responde: você já dividiu a cama com alguém que não queria? Alguém que não fazia sentido algum, mas estava inexoravelmente ali, sem que se pudesse negar o fato? Aquele cheiro, que você finge que não sente, mas ocupa travesseiro, cama, quarto, casa – e você segue se perguntando que diabos está fazendo da vida, assim: ‘O que diabos estou eu fazendo da vida?’
Sabe o que quero dizer, não é? Pois é. O diabo é que ela dorme nessa cama desde o dia em que a deixei se deitar pra descansar um pouco. E não importa se desejo dividi-la com outra pessoa: ela topa. Diz que gosta de mim, que aceita dividir a cama. Que o lance entre a gente é muito mais profundo, que a ligação é – a esta altura dos fatos – impossível de ser desfeita. E enquanto calmamente explica isso, a malvada sorri. Aquele sorriso que brota na cara das pessoas quando elas sabem que tem razão, e que já não há o que argumentar. E eu acabo, como sempre, aceitando a condição de estar ao lado dela. Naquele regime dos padres, ‘pra todo o sempre até que a morte os separe’, ou coisa que o valha.
Ela tem todo aquele charme, aquele mesmo, das mulheres fatais. Primeiro se senta do outro lado do bar, te olha de esguelha enquanto você escolhe um drinque, sentado sozinho esperando ninguém. E caso você se atreva a olhar em sua direção, rapidamente baixa os olhos e brinca com o copo entre os dedos, mesmo que nem goste de gim. Aí vem aquela caça pelos olhares perdidos entre as pessoas que transitam. Algumas noites depois, vocês já estão tomando um vinho e acabam virando a noite a esmo pelas ruas. Então, ela se torna sua. E você se torna dela. Não há mais limite entre os dois: você a detesta, mas precisa daquele sentimento. Você a adora. É sua musa. Para ela sonetos, para ela odisséias intermináveis de corações arruinados e poetas sofrendo em odes.
Entende onde quero chegar? Eu não. Continuo olhando pra ela, que agora passou a fumar cada dia mais. Enrolada com Angústia entre as cobertas, escuto histórias tristes e choro até dormir. Ela me pertence menos que eu a ela, tornando-se o sujeito do meu ser. A despeito do que digam, o substantivo feminino abstrato nessa sentença sou eu.
[...]o substantivo feminino abstrato nessa sentença sou eu.
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