terça-feira, 15 de março de 2011

    

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    Foi um dia daqueles. Daqueles em que eu gostaria de ser qualquer coisa inanimada, não pensante. Menos um ovo, que segundo Quintana pode ser inquietante. Mas tava valendo aquela concha, que vejo pendurada, ou esse cinzeiro sujo aqui. Isso me lembra que tenho que comprar cigarros, e quem sabe um vinho bom, pra sentar aqui e escrever. Jogar tudo pra fora e ir organizando aos poucos. Hoje tomei um café pensando na minha gaveta de meias, toda bagunçada, onde se misturam coisas inúteis a meias sem pares, na pacífica convivência que o caos promoveu.  Acho que estou vivendo em meio a ela sabe? Na desorganização calmamente aceita, na ausência de sentido nas combinações executadas. Fico sentada, em meio a fitas de cetim e antigos bilhetes guardados, procurando algo que faça sentido: um par de meias iguais. Ou bastante parecidas, ao ponto de não se notar a diferença sem mais análises. Qualquer coisa que faça sentido.
       Mas vai caindo à noite e vai ficando cada vez mais difícil. Cada vez que o sol cai, a gaveta vai ficando escura e eu canso de procurar a escolha mais acertada, e saio com uma meia de cada par, pisando insistentemente entre o certo e o errado."

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