da série Aquarelas
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Sentada em meio aos lençóis anoitecendo em laranja neste quarto eu penso em ti. Em quanto te desejo, em quanto preciso da tua presença aqui. Dramaticamente, pateticamente, desesperadamente: pulsando em mim como um dedo que lateja, sim, doendo se preciso . Incomodando se preciso. Irremediavelmente se fazendo sentir.
Na cabeceira da cama, os travesseiros parecem estar alvorecendo, e não se despedindo do dia, como eu. Parecem estar esperando apenas tua chegada para desabrochar as flores estampadas pelo leito, jogadas pelo quarto, despetaladas na minha lembrança. Flores mortas. Flores sem perfume, flores cheirando a papel velho e agonia. Tu me faltas, e então o outono chega: nas janelas, na árvore aqui em frente - que ainda tem aquele nome gravado -, nos meus lençóis. O outono chega em mim, me ventando por dentro e derrubando lágrimas sépia.
Tua ausência morena tinge meus dias de dourado.
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