segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Tulipa

Abriu o armário e disse a si mesma que precisava mudar. Jogar fora velhas lembranças e vícios, trocar de nome, de voz e de Deus.

Bem sabia que precisava se desfazer de sua velha personalidade, que havia mofado na última canícula, a espera que alguém a lembrasse naquela gaveta dos papéis inúteis. Não passava de passado, e de nada adiantaria ficar agarrada a ela como aquelas sanguessugas obstinadas, morando em lagos que ninguém conhece.

Lava o rosto. Quer escovar os dentes, mas decide ceder ao vicio e prepara seu café ao som daquele jazz invadindo vidraças. Na chaleira gasta, a água borbulha, se desespera, e ela nem ao menos percebe. Com o cigarro queimando entre os dedos, canta com Arnaldo uma canção triste por sobre o jazz: ‘sinto que romper a carne é bem mais fácil que nadar... ’

Queima os dedos – merda – enxuga os olhos e prepara o café com esmero de uma mãe dedicada. Não fosse o fato de que nunca tivera filhos, o papel lhe cairia como luva. De pelica. Acende outro cigarro e pensa em quem será hoje: bem sucedida empresária? Cadela no cio? Proletária suburbana? A única coisa que sabe é que não pode ser ela mesma. Isso sim seria loucura.

Se despe enquanto aquela bela voz negra bate em seus amantes, ou chora um perdido amor. A água que lhe cai pela pele branca e marcada pelos seus autoflagelos inconscientes lava o suor da noite não dormida e o sal das lágrimas estúpidas. Pelos peitos, ventre, sexo, coxas e pés, nada além de casca oca naquele banho. Sua mente vaga por ruas, bares, brindes, risos e nasceres de sol que nunca tivera. E consciente da condição de coma induzido, enfia mais um cateter da conveniência e segue vegetando.

Escolhe sua roupa mais sem graça. Hoje quer passar despercebida até pra si mesma. Pinta um sorriso a vermelhão, maquia a verdade e abre a cara pra vida. O dia combina com ela: cinzento, pesado e frio. Tanto melhor. Em dias assim, pode-se chorar pela rua sem caras de espanto daqueles que carregam nas sacolas (biodegradáveis, pois são todos cidadãos corretíssimos, é claro) aquela alegria genuína vendida em cápsulas. O vento lhe arranca o guarda-chuva. Foda-se, pensa rindo, de açúcar e afeto é que nunca fui feita... Sou do tipo que cospe teimosias em permanecer vivo e gris.

A chuva molha sua roupa que cola ao corpo e desperta olhares. Deviam tentar esses olhos de fome em um açougue, quem sabe surtisse efeito. Ou com suas próprias mães, esse bando de filhos da puta...

Vaga o dia a todo a esmo pela cidade. Ela sabe onde tudo, e principalmente, onde todos estão. E é justamente daquelas ruas, daqueles bancos e de todas aquelas letras enfileiradas em mensagens explicitas que ela se enche de asco e foge. A chuva, infeliz, cai cada vez com mais raiva sobre a sua cabeça. Não sente frio, não se cansa, é como se alguma coisa nela fosse inatingível. E deve ser. Ou então ela já teria sido diferente, já teria feito o que nunca fará, e de malas prontas iria pro mar, ou pro quinto dos infernos, mas iria sozinha. Sozinha e em paz. Mas, ressalte-se convenientemente, se não fosse quem é.

Senta então ao lado das flores e agradece aos deuses que costumava acreditar por haver tanta beleza onde há tanta infelicidade. E, calmamente, em meio aos pingos, segredou ás flores que felizes eras elas, que eram amarelas ou vermelhas, e não precisavam ser calmas, ou razoáveis, ou mesmo polidas. A elas, bastava ser. Boninas ou tulipas, como ela, apenas ser. Juntou algumas flores derrubadas pelo vento, fumou todos os cigarros que seu dinheiro pôde comprar, junto aquele gole amargo do fim de tarde chegando, e se dirigiu ao ponto de ônibus.

Lá, em pé, tão bonito e desdenhoso como sempre estava ele. Viro as costas, saio correndo, dobro a esquina? Tudo se passou naquela cabeça de longos cabelos encharcados e revoltos. E foi em frente. Parou, flores nas mãos, nos cabelos e no sorriso. E sorriu. Sorriu muito, e o encarou, face a face, olhos nos olhos. Então percebeu como era pequeno, como era vazio de sentido e como era patético.

Estendeu o pequeno buque, tocou-lhe a face, iluminou-se num sorriso e acendeu o sol. Acabava de beijar seu medo.

‘Eu que sou filho de um pai teimoso, descobri maravilhado que sou mentiroso...’ Cantarolando, apaga o cigarro no café já frio e abre o armário, agora sabendo que já não precisa mais mudar, e se veste de luz.

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