terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Cacofonias noturnas II

E tudo vai bem.
Eles cozinham juntos, se olham nos olhos e riem das idiotices da vida. O aroma no ar lembra dias de cumplicidade e uma espécie de felicidade recendendo a manjericão.
Uma taça de vinho - aquele argentino que ela tanto gosta - e um rubor já invade as faces, e ambos deixam que o calor lhes tome o corpo, e perpasse-os pelas mãos carinhosamente entrelaçadas.
A fumaça, densa, acende suas cabeças e os deixa ligados por um fio tangível de eletricidade.
Maravilha - ela pensa. Bom demais para ser verdade, dialoga consigo mesma.E ele a tira de suas divagações com beijos e cheiros e toques e sons...
Na vitrola, alguém canta em uma língua nórdica, e a música psicótica os embala na cozinha. E tudo tem o seu sentido.
Então, aquele maldito telefone os lembra de sua presença. As respostas de fato nada dizem - e isso lá quer dizer alguma coisa? - e a conversa dura pouco, mas arrebenta com as duas mãos o fio que os unia. Brusco e incoveniente. As desculpas lhe pareciam sinceras, mas o universo já se expandira ao redor deles.
A noite segue, e a esparsa fumaça já não é mais a névoa que os envolve.
Essa noite na cama se fez o frio que há muito já não sentiam. O calor dos corpos aquela noite já não é capaz de provocar chamas. É aquela infeliz frieza que os contamina.

E o sangue, vermelho vivo, escorre pelo ralo onde a vida é bem menos doce do que a dos dois.

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