Olhando janela afora - noite adentro - vejo as sombras tomando cada parte do caminho: será que essa obscuridade tomará toda clarividência com que pensava há minutos atrás?
Sentada com Elis cantando Andança em meus ouvidos vislumbro literalmente a vida passar. Vou com ela, contra ela, depende do ponto de vista?! Cansei dos paliativos. O que sou pra você? Ou o que fui pra você, caso a conjugação soe melhor. Palavras, palavras... Depois de dias esquiva, como gata de rua rondando prato de leite em soleira habitada, hoje novamente me vi parada nas frases, de novo. Palavras, de novo. Ah, e eu que sempre gostei tanto delas! Confesso, me incomodou até os ossos o silêncio. Mas justo quando me acostumava a ele, quando te silenciava em mim, como pescador em mares ermos, fez-se o som. A marola. A inquietação.
As luzes de outro posto de gasolina me cegam. Tão bonita a estrada: bonita e solitária como os sentimentos que guardei dentro daquele livro do Vinicius. Gostaria de poder seguir sempre com ela. Seguir. Ininterruptamente em busca do nada. Da plenitude do nada. Do nada esperar, e abertamente tomar o que a estrada trouxer. Sei o que gostaria de encontrar no final dessas linhas brancas que dividem os que vem dos que vão. E bem sei que não o farei.
Através do vidro embaçado, assim como meu pensamento embotado de ti, vislumbro as luzes de algum outro lugar; onde não estou, onde não estás, onde nunca estaremos. Algum dia estivemos?..
Sinto saudade, nesse exato momento, de um estado de espírito que conheci ao teu lado. E que preservo em mim. E que não tenho meios de usar: apenas ao teu lado ele faz sentido. Pleno. Plena. Quero me perder nos teus cabelos até o sono chegar, e quero acordar com o rosto colado naquele exato pedaço de pele, serena e cheia de sol mesmo que a chuva insista. E querer tanto assim pesa. Meu peito se comprime, como alguém cerrando o punho, por não ser tamanho a suportar a força do que se passa entre carne e cerne. Pequeno demais para a grandeza gravada nas veias dos dias.
Chove, e adoro a sonoridade do atrito dos pneus dos carros em contato com o asfalto molhado: recorda-me o som das artilharias cruzando a noite. Noite sem estrelas, triste. Solitária a não ser por estas linhas e as estradas, que sempre me fazem companhia quando necessito pensar. Mas não queria pensar em ti! E quando menos te pensava, me voltas, em voltas, a dizer de ti, de mim, de nós. E eu, que sempre soube o que dizer, fiquei muda - em branco – a buscar palavras de subterfúgio para não gritar a plenos pulmões que te quero. Que sinto tua falta. Que tuas palavras me faltam a cada dia como fosse vício. Que mesmo sabendo que a lacuna ainda impera, toda manhã te busco em todos meus endereços, tolamente. Que te arranharia inteiro. Te tomaria inteiro. Que não quero pensar, não quero te querer, que não quero admitir que é maior do que parece. E, assim, como fuga, a cada dia vou te escrevendo mais em minhas roupas de cama, nos rodapés dos meus livros, em frases no espelho. E, triste, como aquelas velhas cartas escritas e nunca enviadas, cada dia menos me remeto aos teus cuidados.
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