terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Aurélio

Faziam palavras cruzadas, sentados lado a lado. E eu olhava, me roendo – e não figurativamente – de inveja. Braços dados, atrapalhando a escrita com toda certeza, e nem isso os incomodava. Como isso me incomodava! Eu não tinha sequer uma revista de palavras cruzadas naquele fim de tarde, quem dirá alguém que as fizesse comigo. E olhava, me sentindo patética, até mesmo aquele casal, já gasto do cotidiano, cujas tarefas da vida em comum dividida por anos consecutivos haviam raspado todo brilho da superfície daquele relacionamento. E eu ali – já usei a palavra patética? – sentada escrevendo. Escrevendo e escrevendo. Será permitido por lei casar com um dicionário? Meu único companheiro fiel dos últimos anos tem sido o Aurélio. E eu realmente acho que aquele sobrenome – artístico por vertente - me cairia absurdamente bem.  Além do que, ele tem status, é culto e tem essência. Até poderia me casar com um dicionário de inglês, mas sou bairrista demais pra isso. Ademais, nunca soube escrever em inglês, nem ler em inglês, nem achar ingleses bonitos. E não consigo encarar a forma como falam cuspindo. Ok, ok. Dicionários não falam, eu sei. Mas e eu lá tenho alguma coerência? Tô casando com um dicionário, porra.
Palavras a parte – trocadilho infame e sem graça alguma – continuo sentada, escrevendo sozinha. Nem o Aurélio. Nem o Michaelis. Nem mais os casais. Só essa tarde caindo, o sol se indo, minha dignidade junto.Acho, na verdade, que ela está grudada nessa baba de sorvete na minha blusa. Ou será algodão doce? Sei lá, comi tanta porcaria nessa tarde que pode ser qualquer coisa. Só sei que é cor de rosa. Como essas nuvens passando sobre a minha cabeça, indo e vindo nesse balanço.  To me sentindo, hm, deixa ver... Patética? Acho que já usei essa palavra. Cadê você meu amor? Cadê você com seus sinônimos, com as palavras que eu preciso pra esse texto inútil e não acho? Aurélio, Aurélio, onde estás? Jogue suas páginas, meu príncipe! Nem precisa de um cavalo branco, já tenho esse balanço. Vem, tá fácil. Sem fosso, só uma avenida movimentada. Mas tem ônibus a cada quinze minutos, eu juro. Nada de torres pra escalar, moro num porãozinho furreba cheio de infiltrações, de quinta categoria. Ah, precisa gritar viu? Ou bater palmas, não tenho campainha.  E não precisa me salvar, não. Não tem ninguém me protegendo. Acredite. O dragão sou eu.


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