Naquele instante, se sentiu uma ervilha: pequena, redonda, sem graça. Por via das dúvidas, foi até o espelho checar se por acaso também não estaria verde.
Amenidades. Como detestava as amenidades! Duas ou três palavras. Um oi, um beijo, um tchau. Ela espera ansiosa e isso é tudo que ele pode dar?! E a cara de idiota ainda ali, cor de pele, no espelho. Triplamente decepcionada. Triplamente ervilha.
Aquele pedaço de pano verde que encobre seus mais pervertidos pensamentos está ali, na sua frente, de novo. Porque, vegetal? Para que, ser patética além de tudo? Cordas, teclas,faces, luzes. Já decorara todas aquelas imagens repetidas, repetidas, repetidas...olhava de birra. De teimosia. De recalque. E de vontade, e ah! Que saudade...
Aqueles dedos tão longos, estalados a intervalos regulares. Toda vez que lembrava, entrava em êxtase, entrava
Sentada na cama olha pra fora: era outro o horizonte que queria ver. Porque não acenando na janela em frente, na casa ao lado, em outro bairro? Não, lógico. Era dela mesma que falava. Tinha que ser inviável, tinha que ser distante, distância que não permite cheiros. Termina o café e acende outro cigarro: será que ele, lá, já preparou seu café? E será que pensou nela? Será que lembra do toque e se toca também? E novamente ela fecha os olhos e sente entre os dedos caracóis: um, dois, todos. Se pudesse ser sua, brincaria de desarrumar aqueles cachos um a um, sem pressa e com prazer. Feliz e laranja.
Joga outra partida do tal xadrez mental: recua, avança? Uma jogada distraída e... XEQUE MATE! Era uma rainha quando pensava nos homens, mas frente a ele, se sente peão acuado na espada, jogando sem rumo como se o tabuleiro não passasse de uma amarelinha na calçada da infância.
Sabe dos céus, dos astros, do zodíaco. Discute filosofia, política, ecologia. Gosta de artes, entende do simbolismo e nunca entendeu números primos, nem sequer aritmética. Com ele, pouco lhe resta a falar. Já leu Quintana, Drummond e agora namora por horas Anais Nin. Escreveu contos, poemas, diários. É espiritualizada, acredita em energias como se fossem palpáveis e quando feliz, lê faroestes de bolso. Com ele, samambaia. Discute por horas com o melhor amigo metafísica, corpo astral e ditaduras impostas. Arranca risos da amiga com seus comentários masculinos acerca dos erros da genética. Com ele, lacônica. Monossilábica. Como fosse sonsa, limitada. Tadinha...
Queria falar de sons, das viagens, de vinhos. Dizer de si, divagar os sonhos, e mais que tudo, saber dele. Mas ali, na presença ausente, apenas lacuna e branco. Ouve tudo que lhe traga ele. Até músicas que nunca gostou passaram a ter sentido: basta o primeiro acorde, e ele aparece a lhe buscar sorrisos no peito. Lê seus textos repetidamente, a procura de descobrir onde não disse o que queria que ele soubesse, em qual frase escancaradamente apaixonada escondeu nas entrelinhas o amor que lhe crescia. Mas, como um velho que perdendo os sentidos foge de casa, percorre todas as linhas e desatinada retorna de mãos vazias e idéias confusas a sentar em frente aquele caderno amarelo cheio de flores, insistindo em amanhecer.
Fuma outro cigarro, daqueles que o amigo esquecera, e pensa em si mesma. Mentira. Ela não pensa, apenas sente. Sente aquela tranqüilidade que lhe invadira a cada minuto daquelas horas. Voltara daquele lugar outra, grande, feliz. Deixara em alguma rua de terra, um daqueles quartos com paredes coloridas ou no ar, suavemente balançando,todo seu blue e seus dias cinza tinham agora apenas garoas passageiras. Talvez, reflete, tenha apenas ficado nele.
Bessie Smith grita na vitrola, e ela ri. Sorri e dança pela casa vazia, curtindo sua tão sagrada solidão. Tira suas roupas, atira nos cantos, se joga no chão e levita. Pudesse ele sentir como ela hoje é sol! Como ele a fez sol como há muito já não era.
Pudesse ele sentir como ela o sente. O cheiro ao acordar, a alegria de sabê-lo mesmo longe, o desejo ao se deitar. E acordar suada, gemendo e sorrindo, para voltar a dormir
Sobre as almofadas do canto da sala, envolta em fumaça e som ela suplica o calor. Além daquela chuva. Companhia. Carne. Sangue pulsando. Ela o quer como lenha, pra consumir suas chamas. E chama por ele, sim, enquanto seu corpo treme de prazer novamente. Quem dera nos lábios outros lábios, o corpo dele intenso em sua boca... E o ritmo lento, lento, lento. Pulsante. Ávido. Faminto, afoito, lateja e ah! Ela goza e relaxa o corpo antes que a realidade volte.
E volta. Volta o silêncio, o branco, o nada. Volta a ausência, distância, todos os sinônimos que aprendeu pra descrevê-lo. Com todos aqueles homens na porta, abre a cortina e vislumbra ao longe. É de um tipo raro, inconstante. Deseja o que não tem, o que ninguém quer, e quer o que não pode ser.
Ainda se sabe ervilha no espelho. Mas é com certeza a ervilha mais interessante que conhece.
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