Cheiro de merda. Engraçado, aonde vou esse cheiro tem me acompanhado. Acho que caguei minha vida. Nenhuma explicação diferente me ocorre.
Tiro um extrato no banco, lá está o cheiro. E alguns números assustadores que não vem ao caso, precedidos daquele pavoroso sinal negativo. Vivo literalmente sem limite. Háhá. Quanta graça. Chamo o gerente, que torce o nariz e pergunta: ta sentindo esse cheiro? Cheiro, que cheiro? - retruco eu na minha melhor cara de paisagem. E saio de lá com a certeza da falência e um rolo de papel amarelo que, veja só a ironia dessa minha vida, servirá ao menos pra limpar a bosta em que tenho me afundado.
Sentada na delegacia de polícia, frente a todas aquelas caras simpáticas das ainda mais simpáticas repartições públicas, espero pacientemente minha vez. Tô sentindo aquele cheiro de novo. Na TV, Ana Maria Braga soltando pérolas e mais pérolas. Senha 17! Bom dia moça, pois não? Retirada de uma documentação. Momento, por favor. Qual o motivo da segunda via? Terceira, moço, terceira. Terceira? Amauri, chega aqui no balcão! – grita o careca e suarento servidor que me atendia. Quanto mais perto o Amauri chegava, mais o cheiro da merda aumentava. Fala, moça. Eu, que já não agüentava mais ser chamada de moça, me pus a explicar pela vigésima vez a saga, fedorenta, do roubo dos meus documentos. Cartão de crédito no posto, estelionato, bolsa aberta no bar, roubo, boletim de ocorrência, protocolos de segunda via, retirada, Amauri. Ah, moça, essas documentações vão pro Loureiro, na 1ª DP. Nesse dia eu descobri que a merda fede como nunca às onze horas da manhã numa delegacia, se você xingar a mãe do Amauri.
Tá, esquece o gerente do banco, o Amauri, o Loureiro, o cheiro da merda... Esquece tudo que vou colocar um jazz e tomar aquele banho, e o meu sabonete tem cheirinho de bebê. Do bebê que eu não tenho. Porque eu não tenho um pai pra criança. E porque não? Porque não tenho namorado! E porque não tenho namorado? Ih, do que era o sabonete mesmo? Olha o cheiro aí de novo. E, certeza, não é do meu banheiro. Quanto mais me esfrego, mais o cheiro parece vir do sabonete. Ou será de mim? De dentro. De dentro da minha cabeça. Suspende a lavagem do cabelo. Vai que meu shampoo tenha a mesma essência do sabonete.
Vou sair de casa, acho que esse cheiro de merda tá é aqui. Impregnado nesses móveis que me lembram de uma vida de merda, dessas lembranças de merda, dessa pilha de contas enrolada no papel amarelo que ganhei do banco, dessa merda toda. Essa parede amarela, suja, tá com cor de merda de criança pequena. Ah não, criança não. De novo não. Senão já volta a crise do filho, do pai, da falta do pai, do namorado, da falta do namorado e por aí vai... Eu ia sair né?! Vou me arrumar. Pintar essa cara de merda, colocar um decote, quem sabe. Quem sabe? Quem sabe algum cara – de merda, com certeza – olhe pra mim. Esse vestido tá apertado, e acho que tá meio curto. Será que merda engorda? Foda-se, vou pular corda quinze minutos entes de ir jantar pra ver se emagreço e o vestido se ajeita. Hm, só agora percebi. Mentir pra si mesmo também fede a merda. Deve ser por isso que esse cheiro não me deixa.
Nenhum comentário:
Postar um comentário