Dissolvendo o bicarbonato no copo d’água, Dolores escuta a conversa no quintal: os famigerados preparativos para o almoço de Natal. Tambores do Congo ecoando do lado esquerdo de sua cabeça, claro sinal de que bebera demais... Não se recordava de haver ido deitar.
Peraí, recapitulando. Farofa, briga de família, amigo secreto, os drinques... Ok, explicado. Na tentativa de esquecer o Natal, caprichara neste último item. Será que foi o gim? A cachaça de pitanga, talvez. Muito doce. Engraçado, depois dela a festa pareceu tão melhor. E depois que resolveu sentar com os homens lá fora então, a festa ficou finalmente digerível. O papo, como sempre, muito mais interessante que na cozinha. Um copo vai, um papo vem e ela ali, ouvindo o funk dos vizinhos e comendo rúcula. Na TV, aqueles horripilantes filmes de Natal que passam ano após ano, repetidamente. Começa a contar os prendedores no varal, e lembra de um livro da infância, chamado Os pregadores do Rei João. E lembra de outro: Maneco Caneco Chapéu de Funil. E vê que está bêbada, sentada no colo do pai e cheia de rúcula entre os dentes. E lembra de outro livro, já da adolescência, chamado Melancia. Aí recorda Maitena, e suas Mulheres Alteradas. Então se vê mais bêbada, sentada no chão com um laço de fita na cabeça. Embrulhada pra presente, pensa rindo. Pra ninguém desembrulhar, lembra a si mesma. E chora. Bêbado é uma merda mesmo, diz o pai. Cala a boca guria, diz o tio, e pega outra cerveja. Dolores levanta. Ou acha que levanta. Alvo dos risos – óbvios – da família, jaz Dolores, estirada no chão, com o laço cor de rosa pendurado em uma orelha, gritando: sempre quis ser bailarina de caixinha de música!
Séria como a manhã exageradamente quente, engolindo a salubre solução no copo do Frajola, Dolores tira o laço cor de rosa da orelha e sai cantarolando Jingle Bell.
amei o laço cor de rosa...... nunca quis der a bailarina da caixinha de musica.....sempre sonhei com soldadinhos de chumbo... e hoje aos 41 anos nunca vi e nem muito menos tive um!
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