Sentada, mexendo na velha agenda em busca daquela maldita última conta a ser paga antes que o ano acabe e o dinheiro também, me deparo com aquelas frases escritas em dias de paixão em fúria: como pode um incêndio na floresta apagar com um copo d'água? E água morna, ainda por cima.
Página a página, a cada folha que perpasso os dedos vejo brotando poemas, frases e prosas. E ainda sentada, ainda sozinha, deixo correr soltas todas idéias que me visitam a cada palavra lida. Será que chegamos a partilhar a intensidade da minha agenda? Eu, você? Acho que quem mais amou ainda foi ela. Ao menos, amou cada uma daquelas ofegantes e luxuriosoas palavras como se fosse a última. E, como sempre, um dia foi.
Um belo dia de primavera ( o termo 'belo' - aqui - é apenas para amenizar o assassínio que esses intermináveis dias de chuva fazem em meu - nada - bom humor) abre um cancro na página: um conto, dorido, todo borrado de pingos. Então foi aí que doeu! Foi ali que o drinque desceu rasgando a garganta, e os cacos do copo imaginariamente desfacelado em pedaços encravou na sola dos meus pés, e me impediu de seguir em frente. Foi exatamente alí, naquele dia, que estacionei na tua vida. Ou te estacionei na minha, não sei.
Sei bem o quanto tenho tentado arrancar cada pedaço perdido na pele, certa de que muitos deles me perpassaram o sangue e por vezes me saem dos olhos. Não, nada de belas metáforas para as lágrimas. São pequeninas lanças arremessadas em momentos de cólera felina, na direção de quem quer que arrisque teu nome. Quando sofro, minha crueldade se mostra na face mais pura: me odeio a ponto de querer alijar-me de mim. E então, escrevo. Com sangue, com tinta, com asco. Pinto as paredes, picho os muros cimentados desses horizontes cinzas, faço contas nos cartazes nas placas. Até aquele lençol rabisquei a batom violeta ( exatamente como aquela lambada brega) com palavras sujas e mordazes. Enrolada nele, elegante como uma velha senhora e suas jóias já há muito fora de moda, saio pela cidade a gritar desvarios e jogar cartões postais de lugares que nunca conheci ao vento.
E verde - como a cor da bile que tua indiferença me obriga a destilar -, verde como a bile que não consigo controlar; verde é a cor dos meus olhos na vitrine de usados.
Nenhum comentário:
Postar um comentário