quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Intranqüilidades

Ouvindo um blues meu peito se encolhe.

Não quer se abrir, não quer respirar. 
Seria tão bom esticar os dedos e tocar tua alma só para dissolver a névoa dos sentimentos sufocados...
Enquanto me faltas, faço contas, faço listas, faço asneiras.
A angústia de toda essa intranqüilidade é que me fez este buraco.
E agora não sei se ele tem saída ou não.  


Foto: Mônia R.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Pouco

 - ou Só
ou Da Métrica - 



Foto: Mônia R.

E de tanto pensar
no que não pôde ser

eu
fico
sendo
assim
gris
só.
   

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Adendodia

Foto: Mônia R.








(...) Quando ficava sozinha, ela ás vezes ficava parada olhando os espaços, como se houvesse um sol a se pôr no estio, mesmo que fosse quatro da manhã, ou estivesse chovendo, ou seus olhos estivessem fechados; de medo ou alumbramento, ou de solidão talvez. Penso, mesmo, que ela procurasse, naquele sol que criava na retina, o calor da presença que gostaria de sentir ao seu lado. Do lado esquerdo. Parado, apenas. A existir, só. Não precisaria ser nada. Nem lindo, nem bom, nem eterno. Apenas estar alí e se dar a ela como ela se daria, toda, àquele momento, porque era fogo. Consumia e virava cinza. Depois... depois, era depois.

Aurélio

Faziam palavras cruzadas, sentados lado a lado. E eu olhava, me roendo – e não figurativamente – de inveja. Braços dados, atrapalhando a escrita com toda certeza, e nem isso os incomodava. Como isso me incomodava! Eu não tinha sequer uma revista de palavras cruzadas naquele fim de tarde, quem dirá alguém que as fizesse comigo. E olhava, me sentindo patética, até mesmo aquele casal, já gasto do cotidiano, cujas tarefas da vida em comum dividida por anos consecutivos haviam raspado todo brilho da superfície daquele relacionamento. E eu ali – já usei a palavra patética? – sentada escrevendo. Escrevendo e escrevendo. Será permitido por lei casar com um dicionário? Meu único companheiro fiel dos últimos anos tem sido o Aurélio. E eu realmente acho que aquele sobrenome – artístico por vertente - me cairia absurdamente bem.  Além do que, ele tem status, é culto e tem essência. Até poderia me casar com um dicionário de inglês, mas sou bairrista demais pra isso. Ademais, nunca soube escrever em inglês, nem ler em inglês, nem achar ingleses bonitos. E não consigo encarar a forma como falam cuspindo. Ok, ok. Dicionários não falam, eu sei. Mas e eu lá tenho alguma coerência? Tô casando com um dicionário, porra.
Palavras a parte – trocadilho infame e sem graça alguma – continuo sentada, escrevendo sozinha. Nem o Aurélio. Nem o Michaelis. Nem mais os casais. Só essa tarde caindo, o sol se indo, minha dignidade junto.Acho, na verdade, que ela está grudada nessa baba de sorvete na minha blusa. Ou será algodão doce? Sei lá, comi tanta porcaria nessa tarde que pode ser qualquer coisa. Só sei que é cor de rosa. Como essas nuvens passando sobre a minha cabeça, indo e vindo nesse balanço.  To me sentindo, hm, deixa ver... Patética? Acho que já usei essa palavra. Cadê você meu amor? Cadê você com seus sinônimos, com as palavras que eu preciso pra esse texto inútil e não acho? Aurélio, Aurélio, onde estás? Jogue suas páginas, meu príncipe! Nem precisa de um cavalo branco, já tenho esse balanço. Vem, tá fácil. Sem fosso, só uma avenida movimentada. Mas tem ônibus a cada quinze minutos, eu juro. Nada de torres pra escalar, moro num porãozinho furreba cheio de infiltrações, de quinta categoria. Ah, precisa gritar viu? Ou bater palmas, não tenho campainha.  E não precisa me salvar, não. Não tem ninguém me protegendo. Acredite. O dragão sou eu.


segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Cheiro de merda

Cheiro de merda. Engraçado, aonde vou esse cheiro tem me acompanhado. Acho que caguei minha vida. Nenhuma explicação diferente me ocorre.
Tiro um extrato no banco, lá está o cheiro. E alguns números assustadores que não vem ao caso, precedidos daquele pavoroso sinal negativo. Vivo literalmente sem limite. Háhá. Quanta graça. Chamo o gerente, que torce o nariz e pergunta: ta sentindo esse cheiro? Cheiro, que cheiro? - retruco eu na minha melhor cara de paisagem. E saio de lá com a certeza da falência e um rolo de papel amarelo que, veja só a ironia dessa minha vida, servirá ao menos pra limpar a bosta em que tenho me afundado.
Sentada na delegacia de polícia, frente a todas aquelas caras simpáticas das ainda mais simpáticas repartições públicas, espero pacientemente minha vez. Tô sentindo aquele cheiro de novo. Na TV, Ana Maria Braga soltando pérolas e mais pérolas. Senha 17! Bom dia moça, pois não? Retirada de uma documentação. Momento, por favor. Qual o motivo da segunda via? Terceira, moço, terceira. Terceira? Amauri, chega aqui no balcão! – grita o careca e suarento servidor que me atendia. Quanto mais perto o Amauri chegava, mais o cheiro da merda aumentava.  Fala, moça. Eu, que já não agüentava mais ser chamada de moça, me pus a explicar pela vigésima vez a saga, fedorenta, do roubo dos meus documentos. Cartão de crédito no posto, estelionato, bolsa aberta no bar, roubo, boletim de ocorrência, protocolos de segunda via, retirada, Amauri. Ah, moça, essas documentações vão pro Loureiro, na 1ª DP. Nesse dia eu descobri que a merda fede como nunca às onze horas da manhã numa delegacia, se você xingar a mãe do Amauri.
Tá, esquece o gerente do banco, o Amauri, o Loureiro, o cheiro da merda... Esquece tudo que vou colocar um jazz e tomar aquele banho, e o meu sabonete tem cheirinho de bebê. Do bebê que eu não tenho. Porque eu não tenho um pai pra criança. E porque não? Porque não tenho namorado! E porque não tenho namorado? Ih, do que era o sabonete mesmo? Olha o cheiro aí de novo. E, certeza, não é do meu banheiro. Quanto mais me esfrego, mais o cheiro parece vir do sabonete. Ou será de mim? De dentro. De dentro da minha cabeça. Suspende a lavagem do cabelo. Vai que meu shampoo tenha a mesma essência do sabonete.
Vou sair de casa, acho que esse cheiro de merda tá é aqui. Impregnado nesses móveis que me lembram de uma vida de merda, dessas lembranças de merda, dessa pilha de contas enrolada no papel amarelo que ganhei do banco, dessa merda toda.  Essa parede amarela, suja, tá com cor de merda de criança pequena. Ah não, criança não. De novo não. Senão já volta a crise do filho, do pai, da falta do pai, do namorado, da falta do namorado e por aí vai... Eu ia sair né?! Vou me arrumar. Pintar essa cara de merda, colocar um decote, quem sabe. Quem sabe? Quem sabe algum cara – de merda, com certeza – olhe pra mim. Esse vestido tá apertado, e acho que tá meio curto. Será que merda engorda? Foda-se, vou pular corda quinze minutos entes de ir jantar pra ver se emagreço e o vestido se ajeita. Hm, só agora percebi. Mentir pra si mesmo também fede a merda. Deve ser por isso que esse cheiro não me deixa.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Íntima caligrafia


Nasci poeta.
Desde sempre todas as palavras moraram aqui.

É assim que decifro a vida:
traduzo todas coisas
na linguagem da minha alma.

Cada dia
te invento mais verso e prosa
pra te escrever em mim.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Laço cor de rosa

Dissolvendo o bicarbonato no copo d’água, Dolores escuta a conversa no quintal: os famigerados preparativos para o almoço de Natal. Tambores do Congo ecoando do lado esquerdo de sua cabeça, claro sinal de que bebera demais... Não se recordava de haver ido deitar.

Peraí, recapitulando. Farofa, briga de família, amigo secreto, os drinques... Ok, explicado. Na tentativa de esquecer o Natal, caprichara neste último item. Será que foi o gim? A cachaça de pitanga, talvez. Muito doce. Engraçado, depois dela a festa pareceu tão melhor. E depois que resolveu sentar com os homens lá fora então, a festa ficou finalmente digerível. O papo, como sempre, muito mais interessante que na cozinha. Um copo vai, um papo vem e ela ali, ouvindo o funk dos vizinhos e comendo rúcula. Na TV, aqueles horripilantes filmes de Natal que passam ano após ano, repetidamente. Começa a contar os prendedores no varal, e lembra de um livro da infância, chamado Os pregadores do Rei João. E lembra de outro: Maneco Caneco Chapéu de Funil. E vê que está bêbada, sentada no colo do pai e cheia de rúcula entre os dentes. E lembra de outro livro, já da adolescência, chamado Melancia. Aí recorda Maitena, e suas Mulheres Alteradas. Então se vê mais bêbada, sentada no chão com um laço de fita na cabeça. Embrulhada pra presente, pensa rindo. Pra ninguém desembrulhar, lembra a si mesma. E chora. Bêbado é uma merda mesmo, diz o pai. Cala a boca guria, diz o tio, e pega outra cerveja. Dolores levanta. Ou acha que levanta. Alvo dos risos – óbvios – da família, jaz Dolores, estirada no chão, com o laço cor de rosa pendurado em uma orelha, gritando: sempre quis ser bailarina de caixinha de música!

Séria como a manhã exageradamente quente, engolindo a salubre solução no copo do Frajola, Dolores tira o laço cor de rosa da orelha e sai cantarolando Jingle Bell.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Farofa da Dolores

E ela ali, sentada no meio de toda aquela farofa. A tia falando alto, mais alto que o caminhão estúpido com aqueles sinos estúpidos e aquele Papai Noel fajuto, com a barba pendurada assimetricamente por um fio bagaceiro de elástico. Falando alto e cortando maçãs. E queimando a calda do peru, estúpido ele também. A avó, ao lado da tia, fatia o bacon e consegue o impressionante feito de superar o volume da já citada parente inventora da atualmente conhecida amplificação sonora. E assunto, claro, é Dolores.

A mãe, ao lado das duas, apenas olha Dolores sentada brincando com as absurdamente finas rodelas de cebola que acabara de cortar para a famosa e detestada por ela farofa da família, e se pergunta se as lágrimas são da cebola ou do desespero causado pelo Natal, que a filha tanto odeia. Resolve intervir. ‘deixa a menina em paz, vocês duas. Já falei que o namoradinho (a mãe de Dolores insistia nesse termo que suscitava na filha desejos de evaporar) deixou de gostar dela, e ela não quer admitir, e que além de tudo tá sem dinheiro. Prá que deixar a coitadinha triste?’

Coitadinha. Dolores sentia todos os cabelos de sua nuca se arrepiarem nessa hora. Se via virando o recheio do peru aos berros, esfregando cebola nos olhos da tia e estapeando a avó com pães de alho carinhosamente preparados com sua receita especial. Foda-se a receita especial. A velha merece. Para a mãe, maníaca por limpeza, reservava o requinte da crueldade: se imaginava derramando travessas e mais travessas de farofa entre as roupas das camas milimetricamente arrumadas, dentro das gavetas, enchendo almofadas e armários com a deliciosa farofa da família. Estúpida farofa! Mas, acostumada como um cão de igreja, apenas dizia ‘ namoradinho não, mãe. Namoradinho não. ’

Uva passa, que, aliás, Dolores detesta. E a cada ano que repete essa informação, a quantidade delas na farofa – maldita farofa! – aumenta. A maçã da tia. O bacon da avó. Alho. Milho. Nozes. Pronto! E a mãe, sorridente, comunica: Terminamos a farofa!

Sentada, no meio daquela farofa toda, Dolores. Tão ignorada quanto à cebola minuciosamente cortada para a farofa que não come, na cerimônia que seu espírito insiste em não participar, ela sorrateiramente coloca uma camada de cebolas lindamente fatiadas no pavê inglês.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Fettuccine Alfredo

Chego ao restaurante e escolho aquela mesa junto à janela, pra ver se escapo desse calor infernal tão atípico que faz hoje. Minha aversão ao calor não me permite ver o que se passa ao redor. Neuroses a parte, peço com a máxima polidez que o suor escorrendo em meus olhos permite, uma limonada suíça e parto em busca de saciar a fome que me arrastou até ali.

Na fila da spaghetteria, já vou sonhando com o macarrão como boa glutona: quero isso, mais aquilo, aquele outro... Escolho os complementos do molho. Quero ricota, moço. Mais. Mais um pouco. Isso. Cogumelos. Isso. Palmito. Mais. Um pouco mais. Tá com dó dos palmitos moço? Ok, ok. Não precisa ficar nervoso. Qual o macarrão? Qual a sugestão? Ah, mas tá muito quente pra comer nhoque. Tudo bem, não peço mais sugestão nenhuma. Que gente mais sem paciência nessa fila.

Acontece que, afobada em comer como sempre, esqueci de pegar o prato. Conclusão: ao voltar para buscá-lo, baguncei com categoria a porra da fila. E chega a hora do molho. Obviamente, a cumbuca com todos os ingredientes carinhosamente escolhidos (e habilmente regulados pelo atendente treinado a matar mulheres neuróticas através do desejo de comer palmito) estava fora da ordem. Com toda a educação e gentileza a mim dotadas pela natureza, expliquei a situação a senhora, compreensiva, a minha frente e passei a tentativa de fazer o mesmo a nada contente moçoila operando quatro bocas de fogão enormes naquele calor digno de uma filial direta do quinto dos infernos. A essa altura, ela já havia colocado o molho ao sugo da senhora na minha cumbuca, e aguardava impaciente que eu escolhesse qual o molho gostaria de ter juntamente a minhas alcaparras e calabresas! Com toda humildade de quem faz merda, calmamente contei a ela, até rindo um pouco, a história do prato.

O que eu não esperava é que a Dona Estressadinha do Molho fosse gritar como uma mamma italiana pro restaurante inteiro ouvir que eu era uma incompetente, pois havia no início da fila um aviso, segundo ela, gigante, logo acima dos pratos, orientando o processo. E que se eu havia esculhambado a fila dela, deveria enfiar as calabresas nos ouvidos, já que não comia carne.

Calmamente traçando quatorze planos de assassiná-la assim que terminasse minha refeição, me dirigi novamente ao final daquela linda e longa fila, para ter que implorar por mais palmitos, e ter de vê-la com sorriso de escarninho a quase queimar meu molho Alfredo. Pra completar, ao ver que me dirigia ao cheiro verde, recolheu a travessa com um riso e a frase longamente pronunciada: “desculpe, vou pegar mais.”

Derrotada, sem cheiro verde, com calor, fome e pouquíssimos palmitos acenando no meu fettuccine ao molho Alfredo, me dirigi a minha mesa junto à janela. Surpresa! Como era uma mesa para quatro lugares, e uma família havia chego, pensamos que a senhora não se importaria de...

Ah, foda-se, cadê as minhas coisas? Ah, naquela mesa ali??? Aquela queria dizer a última mesa do salão, ao lado de uma enormíssima família cheia de crianças fazendo guerra de comida e ventilação zero. E, claro, minha limonada já havia sido alvo da guerra e havia uma batata frita mordida boiando, placidamente.

Resolvo contar até trezentos e dezoito e começo a comer. Como de costume, começo a mastigar e minha mente vagueia. Enrolo o macarrão, distraída. As crianças me olham e riem. Não tô naquele bom humor, mas vá lá, uma risadinha. Tá, já deu. Levanto, por um breve momento os olhos, e lá está ele. Moreno. Monumental. Me olhando. O quê? Me olhando? E rindo? Olho pra trás: a parede. O olhar é pra mim, definitivamente. Já fico toda galante. Ajeito o cabelo atrás das orelhas, desvio o olhar e faço toda sorte de charminhos. Ele, olhos fixos e rindo cada minuto mais.

Termino a minha refeição, que aquela altura já me parecia deliciosa, tiro um dos meus cartões da bolsa e rabisco algo no verso. Levanto, com meu esvoaçante vestido branco, e me dirijo até a mesa dele. Coloco o cartão em frente ao seu prato e digo ‘ vi que me olhou durante o almoço inteiro. Sim, você pode me convidar pra sair’.

Ele, longamente me olhando da cabeça aos pés, responde sorrindo calmamente: ‘ moça, você tem macarrão preso no seu decote. ’

Mais lady do que nunca, saio jogando fettuccines pelo chão, ao som dos risos ao redor.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Atenciosamente,

Olhando janela afora - noite adentro - vejo as sombras tomando cada parte do caminho: será que essa obscuridade tomará toda clarividência com que pensava há minutos atrás?

Sentada com Elis cantando Andança em meus ouvidos vislumbro literalmente a vida passar. Vou com ela, contra ela, depende do ponto de vista?! Cansei dos paliativos. O que sou pra você? Ou o que fui pra você, caso a conjugação soe melhor. Palavras, palavras... Depois de dias esquiva, como gata de rua rondando prato de leite em soleira habitada, hoje novamente me vi parada nas frases, de novo. Palavras, de novo. Ah, e eu que sempre gostei tanto delas! Confesso, me incomodou até os ossos o silêncio. Mas justo quando me acostumava a ele, quando te silenciava em mim, como pescador em mares ermos, fez-se o som. A marola. A inquietação.

As luzes de outro posto de gasolina me cegam. Tão bonita a estrada: bonita e solitária como os sentimentos que guardei dentro daquele livro do Vinicius. Gostaria de poder seguir sempre com ela. Seguir. Ininterruptamente em busca do nada. Da plenitude do nada. Do nada esperar, e abertamente tomar o que a estrada trouxer. Sei o que gostaria de encontrar no final dessas linhas brancas que dividem os que vem dos que vão. E bem sei que não o farei.

Através do vidro embaçado, assim como meu pensamento embotado de ti, vislumbro as luzes de algum outro lugar; onde não estou, onde não estás, onde nunca estaremos. Algum dia estivemos?..

Sinto saudade, nesse exato momento, de um estado de espírito que conheci ao teu lado. E que preservo em mim. E que não tenho meios de usar: apenas ao teu lado ele faz sentido. Pleno. Plena. Quero me perder nos teus cabelos até o sono chegar, e quero acordar com o rosto colado naquele exato pedaço de pele, serena e cheia de sol mesmo que a chuva insista. E querer tanto assim pesa. Meu peito se comprime, como alguém cerrando o punho, por não ser tamanho a suportar a força do que se passa entre carne e cerne. Pequeno demais para a grandeza gravada nas veias dos dias.

Chove, e adoro a sonoridade do atrito dos pneus dos carros em contato com o asfalto molhado: recorda-me o som das artilharias cruzando a noite. Noite sem estrelas, triste. Solitária a não ser por estas linhas e as estradas, que sempre me fazem companhia quando necessito pensar. Mas não queria pensar em ti! E quando menos te pensava, me voltas, em voltas, a dizer de ti, de mim, de nós. E eu, que sempre soube o que dizer, fiquei muda - em branco – a buscar palavras de subterfúgio para não gritar a plenos pulmões que te quero. Que sinto tua falta. Que tuas palavras me faltam a cada dia como fosse vício. Que mesmo sabendo que a lacuna ainda impera, toda manhã te busco em todos meus endereços, tolamente. Que te arranharia inteiro. Te tomaria inteiro. Que não quero pensar, não quero te querer, que não quero admitir que é maior do que parece. E, assim, como fuga, a cada dia vou te escrevendo mais em minhas roupas de cama, nos rodapés dos meus livros, em frases no espelho. E, triste, como aquelas velhas cartas escritas e nunca enviadas, cada dia menos me remeto aos teus cuidados.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Verd(e)ades

Sentada, mexendo na velha agenda em busca daquela maldita última conta a ser paga antes que o ano acabe e o dinheiro também, me deparo com aquelas frases escritas em dias de paixão em fúria: como pode um incêndio na floresta apagar com um copo d'água? E água morna, ainda por cima.

Página a página, a cada folha que perpasso os dedos vejo brotando poemas, frases e prosas. E ainda sentada, ainda sozinha, deixo correr soltas todas idéias que me visitam a cada palavra lida. Será que chegamos a partilhar a intensidade da minha agenda? Eu, você? Acho que quem mais amou ainda foi ela. Ao menos, amou cada uma daquelas ofegantes e luxuriosoas palavras como se fosse a última. E, como sempre, um dia foi.

Um belo dia de primavera ( o termo 'belo' - aqui - é apenas para amenizar o assassínio que esses intermináveis dias de chuva fazem em meu - nada - bom humor) abre um cancro na página: um conto, dorido, todo borrado de pingos. Então foi aí que doeu! Foi ali que o drinque desceu rasgando a garganta, e os cacos do copo imaginariamente desfacelado em pedaços encravou na sola dos meus pés, e me impediu de seguir em frente. Foi exatamente alí, naquele dia, que estacionei na tua vida. Ou te estacionei na minha, não sei.
Sei bem o quanto tenho tentado arrancar cada pedaço perdido na pele, certa de que muitos deles me perpassaram o sangue e por vezes me saem dos olhos. Não, nada de belas metáforas para as lágrimas. São pequeninas lanças arremessadas em momentos de cólera felina, na direção de quem quer que arrisque teu nome. Quando sofro, minha crueldade se mostra na face mais pura: me odeio a ponto de querer alijar-me de mim. E então, escrevo. Com sangue, com tinta, com asco. Pinto as paredes, picho os muros cimentados desses horizontes cinzas, faço contas nos cartazes nas placas. Até aquele lençol rabisquei a batom violeta ( exatamente como aquela lambada brega) com palavras sujas e mordazes. Enrolada nele, elegante como uma velha senhora e suas jóias já há muito fora de moda, saio pela cidade a gritar desvarios e jogar cartões postais de lugares que nunca conheci ao vento.

E verde - como a cor da bile que tua indiferença me obriga a destilar -, verde como a bile que não consigo controlar; verde é a cor dos meus olhos na vitrine de usados.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Cacofonias noturnas II

E tudo vai bem.
Eles cozinham juntos, se olham nos olhos e riem das idiotices da vida. O aroma no ar lembra dias de cumplicidade e uma espécie de felicidade recendendo a manjericão.
Uma taça de vinho - aquele argentino que ela tanto gosta - e um rubor já invade as faces, e ambos deixam que o calor lhes tome o corpo, e perpasse-os pelas mãos carinhosamente entrelaçadas.
A fumaça, densa, acende suas cabeças e os deixa ligados por um fio tangível de eletricidade.
Maravilha - ela pensa. Bom demais para ser verdade, dialoga consigo mesma.E ele a tira de suas divagações com beijos e cheiros e toques e sons...
Na vitrola, alguém canta em uma língua nórdica, e a música psicótica os embala na cozinha. E tudo tem o seu sentido.
Então, aquele maldito telefone os lembra de sua presença. As respostas de fato nada dizem - e isso lá quer dizer alguma coisa? - e a conversa dura pouco, mas arrebenta com as duas mãos o fio que os unia. Brusco e incoveniente. As desculpas lhe pareciam sinceras, mas o universo já se expandira ao redor deles.
A noite segue, e a esparsa fumaça já não é mais a névoa que os envolve.
Essa noite na cama se fez o frio que há muito já não sentiam. O calor dos corpos aquela noite já não é capaz de provocar chamas. É aquela infeliz frieza que os contamina.

E o sangue, vermelho vivo, escorre pelo ralo onde a vida é bem menos doce do que a dos dois.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Tulipa

Abriu o armário e disse a si mesma que precisava mudar. Jogar fora velhas lembranças e vícios, trocar de nome, de voz e de Deus.

Bem sabia que precisava se desfazer de sua velha personalidade, que havia mofado na última canícula, a espera que alguém a lembrasse naquela gaveta dos papéis inúteis. Não passava de passado, e de nada adiantaria ficar agarrada a ela como aquelas sanguessugas obstinadas, morando em lagos que ninguém conhece.

Lava o rosto. Quer escovar os dentes, mas decide ceder ao vicio e prepara seu café ao som daquele jazz invadindo vidraças. Na chaleira gasta, a água borbulha, se desespera, e ela nem ao menos percebe. Com o cigarro queimando entre os dedos, canta com Arnaldo uma canção triste por sobre o jazz: ‘sinto que romper a carne é bem mais fácil que nadar... ’

Queima os dedos – merda – enxuga os olhos e prepara o café com esmero de uma mãe dedicada. Não fosse o fato de que nunca tivera filhos, o papel lhe cairia como luva. De pelica. Acende outro cigarro e pensa em quem será hoje: bem sucedida empresária? Cadela no cio? Proletária suburbana? A única coisa que sabe é que não pode ser ela mesma. Isso sim seria loucura.

Se despe enquanto aquela bela voz negra bate em seus amantes, ou chora um perdido amor. A água que lhe cai pela pele branca e marcada pelos seus autoflagelos inconscientes lava o suor da noite não dormida e o sal das lágrimas estúpidas. Pelos peitos, ventre, sexo, coxas e pés, nada além de casca oca naquele banho. Sua mente vaga por ruas, bares, brindes, risos e nasceres de sol que nunca tivera. E consciente da condição de coma induzido, enfia mais um cateter da conveniência e segue vegetando.

Escolhe sua roupa mais sem graça. Hoje quer passar despercebida até pra si mesma. Pinta um sorriso a vermelhão, maquia a verdade e abre a cara pra vida. O dia combina com ela: cinzento, pesado e frio. Tanto melhor. Em dias assim, pode-se chorar pela rua sem caras de espanto daqueles que carregam nas sacolas (biodegradáveis, pois são todos cidadãos corretíssimos, é claro) aquela alegria genuína vendida em cápsulas. O vento lhe arranca o guarda-chuva. Foda-se, pensa rindo, de açúcar e afeto é que nunca fui feita... Sou do tipo que cospe teimosias em permanecer vivo e gris.

A chuva molha sua roupa que cola ao corpo e desperta olhares. Deviam tentar esses olhos de fome em um açougue, quem sabe surtisse efeito. Ou com suas próprias mães, esse bando de filhos da puta...

Vaga o dia a todo a esmo pela cidade. Ela sabe onde tudo, e principalmente, onde todos estão. E é justamente daquelas ruas, daqueles bancos e de todas aquelas letras enfileiradas em mensagens explicitas que ela se enche de asco e foge. A chuva, infeliz, cai cada vez com mais raiva sobre a sua cabeça. Não sente frio, não se cansa, é como se alguma coisa nela fosse inatingível. E deve ser. Ou então ela já teria sido diferente, já teria feito o que nunca fará, e de malas prontas iria pro mar, ou pro quinto dos infernos, mas iria sozinha. Sozinha e em paz. Mas, ressalte-se convenientemente, se não fosse quem é.

Senta então ao lado das flores e agradece aos deuses que costumava acreditar por haver tanta beleza onde há tanta infelicidade. E, calmamente, em meio aos pingos, segredou ás flores que felizes eras elas, que eram amarelas ou vermelhas, e não precisavam ser calmas, ou razoáveis, ou mesmo polidas. A elas, bastava ser. Boninas ou tulipas, como ela, apenas ser. Juntou algumas flores derrubadas pelo vento, fumou todos os cigarros que seu dinheiro pôde comprar, junto aquele gole amargo do fim de tarde chegando, e se dirigiu ao ponto de ônibus.

Lá, em pé, tão bonito e desdenhoso como sempre estava ele. Viro as costas, saio correndo, dobro a esquina? Tudo se passou naquela cabeça de longos cabelos encharcados e revoltos. E foi em frente. Parou, flores nas mãos, nos cabelos e no sorriso. E sorriu. Sorriu muito, e o encarou, face a face, olhos nos olhos. Então percebeu como era pequeno, como era vazio de sentido e como era patético.

Estendeu o pequeno buque, tocou-lhe a face, iluminou-se num sorriso e acendeu o sol. Acabava de beijar seu medo.

‘Eu que sou filho de um pai teimoso, descobri maravilhado que sou mentiroso...’ Cantarolando, apaga o cigarro no café já frio e abre o armário, agora sabendo que já não precisa mais mudar, e se veste de luz.

Ervilha

Naquele instante, se sentiu uma ervilha: pequena, redonda, sem graça. Por via das dúvidas, foi até o espelho checar se por acaso também não estaria verde.

Amenidades. Como detestava as amenidades! Duas ou três palavras. Um oi, um beijo, um tchau. Ela espera ansiosa e isso é tudo que ele pode dar?! E a cara de idiota ainda ali, cor de pele, no espelho. Triplamente decepcionada. Triplamente ervilha.

Aquele pedaço de pano verde que encobre seus mais pervertidos pensamentos está ali, na sua frente, de novo. Porque, vegetal? Para que, ser patética além de tudo? Cordas, teclas,faces, luzes. Já decorara todas aquelas imagens repetidas, repetidas, repetidas...olhava de birra. De teimosia. De recalque. E de vontade, e ah! Que saudade...

Aqueles dedos tão longos, estalados a intervalos regulares. Toda vez que lembrava, entrava em êxtase, entrava em si. Lá estavam eles. Lá estava ela: seus dedos, seus pêlos, sua carne e ele. Entre os lábios, ela. Na cabeça, ele. E os vagalumes, e a escuridão... e justo como aquela lua, ela se encontra crescente. Sempre se soubera luar.

Sentada na cama olha pra fora: era outro o horizonte que queria ver. Porque não acenando na janela em frente, na casa ao lado, em outro bairro? Não, lógico. Era dela mesma que falava. Tinha que ser inviável, tinha que ser distante, distância que não permite cheiros. Termina o café e acende outro cigarro: será que ele, lá, já preparou seu café? E será que pensou nela? Será que lembra do toque e se toca também? E novamente ela fecha os olhos e sente entre os dedos caracóis: um, dois, todos. Se pudesse ser sua, brincaria de desarrumar aqueles cachos um a um, sem pressa e com prazer. Feliz e laranja.

Joga outra partida do tal xadrez mental: recua, avança? Uma jogada distraída e... XEQUE MATE! Era uma rainha quando pensava nos homens, mas frente a ele, se sente peão acuado na espada, jogando sem rumo como se o tabuleiro não passasse de uma amarelinha na calçada da infância.

Sabe dos céus, dos astros, do zodíaco. Discute filosofia, política, ecologia. Gosta de artes, entende do simbolismo e nunca entendeu números primos, nem sequer aritmética. Com ele, pouco lhe resta a falar. Já leu Quintana, Drummond e agora namora por horas Anais Nin. Escreveu contos, poemas, diários. É espiritualizada, acredita em energias como se fossem palpáveis e quando feliz, lê faroestes de bolso. Com ele, samambaia. Discute por horas com o melhor amigo metafísica, corpo astral e ditaduras impostas. Arranca risos da amiga com seus comentários masculinos acerca dos erros da genética. Com ele, lacônica. Monossilábica. Como fosse sonsa, limitada. Tadinha...

Queria falar de sons, das viagens, de vinhos. Dizer de si, divagar os sonhos, e mais que tudo, saber dele. Mas ali, na presença ausente, apenas lacuna e branco. Ouve tudo que lhe traga ele. Até músicas que nunca gostou passaram a ter sentido: basta o primeiro acorde, e ele aparece a lhe buscar sorrisos no peito. Lê seus textos repetidamente, a procura de descobrir onde não disse o que queria que ele soubesse, em qual frase escancaradamente apaixonada escondeu nas entrelinhas o amor que lhe crescia. Mas, como um velho que perdendo os sentidos foge de casa, percorre todas as linhas e desatinada retorna de mãos vazias e idéias confusas a sentar em frente aquele caderno amarelo cheio de flores, insistindo em amanhecer.

Fuma outro cigarro, daqueles que o amigo esquecera, e pensa em si mesma. Mentira. Ela não pensa, apenas sente. Sente aquela tranqüilidade que lhe invadira a cada minuto daquelas horas. Voltara daquele lugar outra, grande, feliz. Deixara em alguma rua de terra, um daqueles quartos com paredes coloridas ou no ar, suavemente balançando,todo seu blue e seus dias cinza tinham agora apenas garoas passageiras. Talvez, reflete, tenha apenas ficado nele.

Bessie Smith grita na vitrola, e ela ri. Sorri e dança pela casa vazia, curtindo sua tão sagrada solidão. Tira suas roupas, atira nos cantos, se joga no chão e levita. Pudesse ele sentir como ela hoje é sol! Como ele a fez sol como há muito já não era.

Pudesse ele sentir como ela o sente. O cheiro ao acordar, a alegria de sabê-lo mesmo longe, o desejo ao se deitar. E acordar suada, gemendo e sorrindo, para voltar a dormir em paz. Paz que invadiu a alma, encheu o corpo, ficou na entranha, deixou vestígios.

Sobre as almofadas do canto da sala, envolta em fumaça e som ela suplica o calor. Além daquela chuva. Companhia. Carne. Sangue pulsando. Ela o quer como lenha, pra consumir suas chamas. E chama por ele, sim, enquanto seu corpo treme de prazer novamente. Quem dera nos lábios outros lábios, o corpo dele intenso em sua boca... E o ritmo lento, lento, lento. Pulsante. Ávido. Faminto, afoito, lateja e ah! Ela goza e relaxa o corpo antes que a realidade volte.

E volta. Volta o silêncio, o branco, o nada. Volta a ausência, distância, todos os sinônimos que aprendeu pra descrevê-lo. Com todos aqueles homens na porta, abre a cortina e vislumbra ao longe. É de um tipo raro, inconstante. Deseja o que não tem, o que ninguém quer, e quer o que não pode ser.

Ainda se sabe ervilha no espelho. Mas é com certeza a ervilha mais interessante que conhece.