sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Covardia




Na minha intensidade já sempre sabida, fui ao fundo daquele armário buscar as melhores coisas pra te dar. 

Vasculhei as gavetas na captura de lembranças boas, laços de fita, pedaços de mim cheirando a poesia.  Juntei tudo da melhor maneira que pude e desenhei um cartão a aquarela. Não sou feita das entregas, mas quando encontro endereço, me remeto sem embrulhos, com a urgência dos presentes há muito guardados.

Na minha ingenuidade femininamente apaixonada, eu sentei e esperei. Esperei que da tua garganta escapassem palavras enamoradas, embotadas de sentimento. Pensei que sentisse. Pensei até que sentisse, e talvez, não mo dissesse. Então, acalentei a esperança de um beijo, um toque no cabelo, um pequeno gesto, um sublimado olhar. Mas nem em partes. Nem um meio olhar, um pedaço de sorriso, um esboço de aceno.

A mim bastava apenas uma pequena palavra, que nunca disseste. Uma voz em meio à madrugada, acendendo a luz do meu quarto e jogando as cobertas longe, para me ver nua refletindo os raios lunares que penetram à persiana, da forma como não o fizeste.  

E eu que pensei que sentisses.

Ou não sentes, ou tens coragem. E juro que não sei o que me parece pior. 

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Verde Amarelo Blue



Estou sentada na sala, fumando no escuro. Descansando da limpeza. De te varrer de vez. Lavar teus riscos pelas paredes.

Do mofo, formando desenhos de veludo pelas paredes amareladas, eu até gostava.  Agora os riscos, a me espreitar por todos os cômodos, até nos azulejos – por esses eu me sentia vigiada. Não, eu sentia que eles me acompanhavam onde quer que fosse.  Dentro dessa casa, não havia mais onde olhar para o vazio. As paredes – sem quadros – estavam rabiscadas com poemas, com desenhos rudimentares e palavras jogadas, assim, ao léu naquelas noites de porre.  Nos minutos preenchidos de conversas entre a tua lembrança e eu. Numa madrugada, sentada exatamente como agora, fumando no escuro, na poltrona em frente à porta - o farol dum carro iluminou a sala e eu vi um livro se formar pelas paredes. E a personagem não era eu.  Então entendi que ali dentro nunca estaria sozinha, com tantos sentimentos pendurados a grafite juntando poeira ao meu redor.  Eu precisava do vazio. De um pouco dele, ao menos.

Aos poucos fui esfregando as lembranças, sabe, ensaboando uma a uma. E fui lavando junto os quadros que o mofo criara pra ilustrar essa história. Aos poucos. Eu limpava tudo com a paciência de um colecionador. Aos poucos a casa voltava a ser amarela.  E de repente, eu havia te raspado das minhas paredes – junto com água sanitária e bolor.  Deu tanto trabalho apagar tudo! Meu corpo doía por inteiro. Foi preciso machucar  por inteiro, querer por inteiro pra ir até o fim.  Eu terminei a última parede. Olhei no relógio e já se fazia madrugada.

Apaguei as luzes e me sentei aqui, na poltrona em frente à porta. Ainda estou aqui, com meu cigarro, esperando que um carro passe e ilumine a sala.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Lagarteando


A felicidade é algo que flutua no ar.

Colorida e sonora como um devaneio onírico em que sou a personagem principal.
Em meio a fumaça - que nos separa -  me vejo sentada naquele velho cogumelo a divagar:

basta inventar verdades, acreditar no que nunca foi dito, dizer o que nunca interessou a ninguém?

Mas porque se preocupar com quem não vive?!

Afinal de contas, todos aqui somos loucos -
eu, você, o gato.


Todos, menos quem intenta ser.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Tolices



Inquietações...


Psicodelias
psicologias
psicopatias
ecoando nos ouvidos, 
confusões transbordando pelos olhos, 
sensações conflitantes eclodindo como sangue pelos poros: 
me faz sentir viva,
me mata de angústia.


Tenho faces
fases
frases 
diversas demais me habitando o corpo, 
como fosse macela 
de uma boneca de pano, 
que quando se aperta explode pelos vãos das costuras.  


Quietude.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

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Há dias que a vida assobia
 - melodiosa:

quando deito poesia
 e acordo prosa.





domingo, 6 de fevereiro de 2011

Do jornal

Pego o jornal
Não são quadrinhos que busco
Crônicas políticas, economia circense
Fraudes, sequestros de diplomatas
ou o campeão do Estadual.

Meus olhos buscam
afoitos
pelos classificados.

Eu procuro por um mundo melhor.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

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Foto: Mônia R.





Estrada reta
ou curva incerta?

Amor,
desvio de rota.

Da menina na janela



da série Aquarelas

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Eu fazia desenhos na janela suada pela água fervente do café. Desenhava um trem. Um trem que me levasse pra longe, que viesse com todos aqueles barulhos dos poemas de Drummond, com as cercas passando do Quintana, com todos os adeuses da Cecília. E me desenhava na janela dele, bonequinha de palitos, com um largo sorriso e um gesto de aceno pendurado na ponta dos dedos, que, elevados ao céu, pareciam querer tocar uma nuvem.  Desenhava um passarinho, e me lembrava daquela pena que recolhi naquela manhã em que a grama estava molhada, e eu olhava calmamente as vacas pastando e as nuvens preparando silenciosamente, em azul denso e escuro, a chuva. Eu amava aquela pena. Ela me lembrava que eu também sou feita de nuvem. Que vago por aí, escondendo sóis, dançando nos ventos e - quando blue - chovendo inteira pra voltar mais clara, mais pura, mais brilhante. E carregando todas coisas dos ares percorridos, das terras por onde passo. Parece que hoje vai chover. A água fervia e eu desenhava. Desenhava como criança, com traços tortos e confusos. O vapor ia cobrindo meus desenhos, e eu inventando a cada movimento de dedo uma nova história. E a cada novo elemento, fechava os olhos e sorria por dentro: me imaginava naquele trem, contornando aquela serra, cruzando caminhos que não conheço, descendo em uma estação qualquer para fumar um cigarro antes que a viagem continuasse. Por que ela sempre continua.

E eu continuo a menina na janela. Na janela desse trem, desenhado na minha janela.



***