domingo, 29 de julho de 2012



Afinal, é madrugada. É a madrugada fria, fria toda, da qual me escondo aqui nessa poltrona em meio ao escuro da casa. Tinha ficado a tua espera, inútil espera, e precisei escrever pra não morrer, sabe? Não aquele morrer de tragédia, com cicuta e olhares fatais, mas de engasgo. Minha cabeça mastigou de um lado ao outro, de um lado ao outro, mas nem ela nem ninguém aqui nesse corpo conseguiu foi engolir. Aí a insônia veio, quis conversar sobre isso e acabei me engasgando. 
Não sei nem ao menos do que é feito esse cuspe. Frustração uns 70%, na boa. Mas, e o resto? Água, ou o amor que nela se diluiu? Raiva da tua ausência aqui-agora, eu acho. Falei pra relaxar, que tava tudo bem. Mas não achei que lavaria a sério, que deixaria a madrugada fria aqui comigo, como a um bebê choroso e insone. Por isso dormi em meio a cólica e o choro, numa tentativa desesperada de ler Virgínia Wolf com os olhos quase fechados de dor e mar, bem assim, indo e voltando aquela pocinha no canto direito, sem fim. Sem trégua. Afinal, é madrugada, como eu já disse. E a noite essa ideia do não-você-aqui parece dez vezes mais aterrorizante do que a luz do dia, da força e da farsa. No escuro, parece que os medos ficam mais a vontade, e podem transitar pelo corpo e pelo quarto de cuecas, sem se preocupar em interrupções de sanidade, próprias ou alheias.
Afinal, é madrugada e a rua está quieta. A cada ronco de carro meus medos pulam orelha adentro e eu corro espiar a rua, ver se te caço na sombra dos postes ou se um barulho de chave me acalma por dentro. Nunca nada. Só o escuro, a vigilância incessante e os cães na outra quadra. E o escuro aqui dentro, o gato no colo e o coração na mão. Será que não durmo nunca mais? Afinal, é madrugada. Não vou me embriagar e te ligar chorando. Nem te deixar bilhetes enfurecidos como uma mãe preocupada. Vou ver um filme de amor, te odiar e te chamar noite a dentro, entre soluços e pipocas. Bem baixinho, afinal, é madrugada e corações tranquilos dormem.

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