sexta-feira, 29 de abril de 2011

Péantepé





Mais um passo
e tudo posso
nos teus espaços.

Mais um passo
e então perpassas
os meus esboços.

Mais um passo,
e seremos nossos.




terça-feira, 5 de abril de 2011




Açucena
desmadrugada
molhada
de orvalho:
sou eu
desejando
beija-flor
na ponta do galho...




segunda-feira, 4 de abril de 2011

Meio tom



da série Aquarelas

***


Eu passara o dia em branco. Ou seria em preto? Gris, sombra, carvão... Qualquer cor que escolhesse não seria precisa. Eu hoje tinha a cor – a indescritível cor – daqueles velhos livros de escola que emboloram guardados nos porões úmidos. Eu própria era uma espécie de porão, onde entulhara tudo que nunca me permitira sentir, até que apareceras me abrindo janelas, soprando tua brisa entre as páginas já há muito fechadas.
E agora eu te esperava. Com aquela sensação de ter um coração extra, batendo pendurado na boca do estômago, pois tu vinhas e eu te esperava. E rapidamente começara a me sentir feliz, diante da espera daqueles olhos.
Com as mãos úmidas e um sorriso pendente do canto da boca, eu arrumara a casa, estendera as cobertas na cama – desfeita o dia todo – e passara um café pra espantar a ansiedade que latejava junto aquele coração acoplado ao estômago.  Embaixo da água do chuveiro, deixara todas palavras duras que conhecia, e guardara entre as pálpebras os olhares mais doces que conseguira. Cheirando a sândalo, refestelada entre as almofadas eu esperei e esperei. A cada luz de um automóvel qualquer invadindo a vidraça, eu fechava a revista que já folheara tantas vezes que nos cantos das páginas jaziam impressões inertes de meus dedos. Impressões que deveriam estar em ti, pelo teu corpo que eu esperava sentada na cama, perfumada e colorida.
Então entendi que não virias. Lentamente apaguei as luzes, desliguei o som e fechei as marcas que dedos que pintara naquelas páginas cheias de imagens e cores que eu nunca vivera, e nem creio que um dia o faça. O colorido ficara adormecido junto a tua ausência. Mais uma noite meio cinza. Meios tons. 
Meia noite. E, pela metade, eu.

Letras Vermelhas




        Coloco as mãos no bolso e as lágrimas para fora. O vento é gelado e me queima o rosto por onde correm imagens distorcidas, misturando o que foi e o que temo que nunca será. A realidade se mescla aos meus devaneios em rostos que imagino ver refletidos nesses vidros ao meu lado. Os carros passam, o trânsito pára, as pessoas andam como formigas carregadeiras indo e vindo para lugar algum. Entre elas fico eu, parada, fumando um cigarro na contramão da vida. Onde vão dar todos esses caminhos que todos percorrem?! Eu queria mesmo era parar, parar...

        Faço um pedido ao meu cílio esquerdo que caiu. O que quero agora é tão absurdo que nem o cílio acredita e voa. E quem foi que me disse que pêlos caídos realizam desejos?!

        Acompanho alguns insetos com os olhos, quebro um graveto com as mãos e a noite cai. A garoa não é mais fria que eu, portanto não me incomoda. Resolvo tomar uma atitude. Ou uma cerveja, o que eu encontrar primeiro. Andei tanto sem me dar conta que não sei exatamente onde estou. Grande novidade. Há muito já não sei onde me encontrar. O frio está cada vez pior, e meus dedos da mão doem. Decido tomar um ônibus.

        Gente. Que coisa feia são as pessoas. Sempre com suas caras forçadas, cansadas ou de uma alegria tão besta quanto passageira. Misturo-me a eles. Mostro a língua para uma criança que não cansa de me olhar, ela acha graça e ficamos fazendo caretas, a despeito da mãe e, creio que, do restante do ônibus acharem aquilo um absurdo. Queria mesmo é que as línguas daquele ônibus todo caíssem. Pelo menos parariam de vomitar palavras em vão.

        Gostaria tanto de deitar e conseguir dormir. Mas meu travesseiro não deixa. Fica segredando coisas cruéis nos meus ouvidos e me obriga a gritar para abafar sua voz. E é simplesmente impossível dormir com gritos na garganta. Levanto meu corpo, arejo minha alma e hasteio meus pensamentos. Minha melhor companhia é a tinta. Escrevo como um autista que repete o mesmo movimento contínua e loucamente.

        Se pudesse escreveria na tua cara com letras vermelhas: é você a palavra que me falta.

domingo, 3 de abril de 2011

Lupina



Nos teus olhos
- escuros como a noite que vimos dormir pra que viesse o Sol -

me perco.

Não conheço teus caminhos,
e por isso ando em círculos como um animal ferido.

Quem dera tivesse o brilho capaz de ascender estrelas!