Ás vezes sinto falta do teu jeito: arrogante, presunçoso e cheio de charme. Do jeito como me olhava nos olhos, sob aquela luz bruxuleante do fim da tarde, e parecia me atravessar como uma lança das Cruzadas perpassando um infiel. Eu, com a eterna heresia queimando a carne, me sentia acuada, desvendada, apaixonada. Perdidamente. Perdida numa cidade não minha, nos teus caminhos tão próprios e nesses beijos não meus. A cada passo por essas ruas sujas eu via uma paisagem nova, e te descobria outro: a inteligência que me batia na face, rebatendo cada frase capciosa que me escapava por entre os dentes. Em você, eu gostava das idéias. Da forma como a teoria te escorria sumarenta nas conversas, virando depois polpa amassada na prática da vida. Mas como eu não era tua vida, e nem ao menos sabia se desejava pertencer a ela, pouco me importavam tuas práticas. Tua teoria me encantava, e de ti eu fazia um pequenino livro a cada noite que nos encontrávamos, num daqueles bares sujos onde começávamos heróicas peregrinações em busca de qualquer diversão superficial e barata, que nunca terminavam antes do sol nascer ou da bebida nos derrubar num lençol de motel de quinta categoria. Motéis que – segundo você – custavam menos que aquela garrafa de vinho argentino que eu escolhi pra te levar pra cama.
Ainda hoje às vezes te levo pra cama, em meio a sonhos encharcados daquele mesmo vinho com que nos declaramos descaradamente nossos pra sempre por aquela manhã. Abuso teu corpo, com minhas unhas grandes de sonho, com meus dentes afiados, te enlaço com meus cabelos. Te possuo à margem, despudorada e impura. E então acordo santa, cada dia menos tua.