quarta-feira, 25 de maio de 2011

Ocasional,






Foto: Mônia R.





Ocasional,

o fim da tarde
finda cedo.










Foto do quintal de casa, às 17:49 horas. Curitiba escurece antes que os próprios grilos percebam.

Vocálicas

*






gritei
em ditongos crescentes
pela madrugada inteira
o teu nome

insone
o músculo pulsava 
- ecoando no saguão do peito - 
espião de todos meus erros

cruel  desencontro  
entre(o)sono
meu poema é hiato:
voo.






*

terça-feira, 10 de maio de 2011

Como fossem meus dentes





Como fossem meus dentes
caindo um a um
vão pouco a pouco desaparecendo certas lembranças.


Minha carne sangra esquecimento.



sexta-feira, 6 de maio de 2011

Dourado



da série Aquarelas

***



        Sentada em meio aos lençóis anoitecendo em laranja neste quarto eu penso em ti. Em quanto te desejo, em quanto preciso da tua presença aqui. Dramaticamente, pateticamente, desesperadamente: pulsando em mim como um dedo que lateja, sim, doendo se preciso . Incomodando se preciso. Irremediavelmente se fazendo sentir.
     Na cabeceira da cama, os travesseiros parecem estar alvorecendo, e não se  despedindo   do dia, como eu. Parecem estar esperando apenas tua chegada para desabrochar as flores estampadas pelo leito, jogadas pelo quarto, despetaladas na minha lembrança. Flores mortas. Flores sem perfume, flores cheirando a papel velho e agonia. Tu me faltas, e então o outono chega: nas janelas, na árvore aqui em frente - que ainda tem aquele nome gravado -, nos meus lençóis. O outono chega em mim, me ventando por dentro e  derrubando lágrimas sépia.
           Tua ausência morena  tinge meus dias de dourado.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Morpho



Ou Seda azul, para ti.



Veio caindo
caindo
a pétala azul
até repousar na minha mão.

E eu que sorria flor
agora choro borboleta.






segunda-feira, 2 de maio de 2011

Dama Branca






Passara a vida sentada no jardim
Angelicalmente tingida de flores alvas
Com um beijo
De pêssego maduro
Pendendo do lábio

Esperava seu consorte
Vestida de renda branca
Tiritando de frio

Nunca soubera
Se inverno ou primavera.




domingo, 1 de maio de 2011

Futuro do Pretérito Imperfeito I

        


           
        Ás vezes sinto falta do teu jeito: arrogante, presunçoso e cheio de charme. Do jeito como me olhava nos olhos, sob aquela luz bruxuleante do fim da tarde, e parecia me atravessar como uma lança das Cruzadas perpassando um infiel. Eu, com a  eterna heresia queimando a carne, me sentia acuada, desvendada, apaixonada. Perdidamente. Perdida numa cidade não minha, nos teus caminhos tão próprios e nesses beijos não meus. A cada passo por essas ruas sujas eu via uma paisagem nova, e te descobria outro: a inteligência que me batia na face, rebatendo cada frase capciosa que me escapava por entre os dentes. Em você, eu gostava das idéias. Da forma como a teoria te escorria sumarenta nas conversas, virando depois polpa amassada na prática da vida. Mas como eu não era tua vida, e nem ao menos sabia se desejava pertencer a ela, pouco me importavam tuas práticas. Tua teoria me encantava, e de ti eu fazia um pequenino livro a cada noite que nos encontrávamos, num daqueles bares sujos onde começávamos heróicas peregrinações em busca de qualquer diversão superficial e barata, que nunca terminavam antes do sol nascer ou da bebida nos derrubar num lençol de motel de quinta categoria. Motéis que – segundo você – custavam menos que aquela garrafa de vinho argentino que eu escolhi pra te levar pra cama.
        Ainda hoje às vezes te levo pra cama, em meio a sonhos encharcados daquele mesmo vinho com que nos declaramos descaradamente nossos pra sempre por aquela manhã. Abuso teu corpo, com minhas unhas grandes de sonho, com meus dentes afiados, te enlaço com meus cabelos. Te possuo à margem, despudorada e impura. E então acordo santa, cada dia menos tua.