quinta-feira, 31 de março de 2011




Ouvindo o barulho lá fora
pensei que era tua chegada.

Quem dera!
Era só minha vontade em revoada.






quarta-feira, 30 de março de 2011




Nessa manhã
densa
acordo mansa

flor da apaixonada insônia

somente para esperar o ocaso
e murchar
em tons violáceos
- confirmadamente perecível -
com vagar nos teus braços.




Foto: Mônia R.




terça-feira, 15 de março de 2011

    

"(...)     

    Foi um dia daqueles. Daqueles em que eu gostaria de ser qualquer coisa inanimada, não pensante. Menos um ovo, que segundo Quintana pode ser inquietante. Mas tava valendo aquela concha, que vejo pendurada, ou esse cinzeiro sujo aqui. Isso me lembra que tenho que comprar cigarros, e quem sabe um vinho bom, pra sentar aqui e escrever. Jogar tudo pra fora e ir organizando aos poucos. Hoje tomei um café pensando na minha gaveta de meias, toda bagunçada, onde se misturam coisas inúteis a meias sem pares, na pacífica convivência que o caos promoveu.  Acho que estou vivendo em meio a ela sabe? Na desorganização calmamente aceita, na ausência de sentido nas combinações executadas. Fico sentada, em meio a fitas de cetim e antigos bilhetes guardados, procurando algo que faça sentido: um par de meias iguais. Ou bastante parecidas, ao ponto de não se notar a diferença sem mais análises. Qualquer coisa que faça sentido.
       Mas vai caindo à noite e vai ficando cada vez mais difícil. Cada vez que o sol cai, a gaveta vai ficando escura e eu canso de procurar a escolha mais acertada, e saio com uma meia de cada par, pisando insistentemente entre o certo e o errado."

quinta-feira, 10 de março de 2011

Veja essa canção




Que lindo pôr do sol aquele
em que o laranja beijava o mar
e o mar lambia a areia
e areia acariciava teus pés,
que iam andando, andando ao meu lado
sem jamais me alcançar.

Mas isto tu não sabias
e me contava rindo dos idos anos que não vivera
enquanto os postes, tristes, olhavam com inveja a lua...

Foto: Mônia R.

Vermelho morte

        



        Fiquei sentado naquele banheiro minúsculo, mal cheiroso e abafado por horas. Não conseguia levantar. A incompreensão do que estava acontecendo me atordoava. Como sair daquele cubículo? Como levantar daquele canto, sujo, onde eu dividia meus pensamentos com a lixeira transbordante. Se fosse pensar bem, eu estava no melhor lugar do mundo pro estado em que me encontrava: na merda.
        Olhei para um papel de cigarros jogado no chão e senti vontade de fumar. Vasculhei os bolsos, e a única coisa que achei foi um rasgo do lado esquerdo. Pra ser sincero, nem me importei muito com o bolso. Meu lado esquerdo inteiro estava rasgado. Eu estava rasgado por inteiro, esperando apenas esvair em sangue até morrer. Deve ser morno morrer assim. Vendo a vida, vermelho morte, partindo aos poucos. O sangue jorrando no começo, carne arroxeada exposta e o líquido quente jorrando com velocidade e agonia. Depois, conforme a lentidão da hemorragia se aproxima apreciar a necrose da ferida, o cheiro metálico de sangue e um resquício daquele perfume barato e nojento impregnado na pele já sem cor, de veias murchas e não mais azuis. Eu já podia sentir o cheiro putrefato de carniça saindo daquele pequeno banheiro de bar: as pessoas tapando os narizes e reclamando do estado de limpeza das coisas hoje em dia. E eu morto, fedendo junto com os papéis da lixeira, com a camisa branca de botões ensopada de sangue e perfume, com um riso de escárnio, daqueles que nascem no canto da boca. Eu – morto e contente.
        Eu senti uma paz tão grande pensando nisso que até abracei a lixeira. Queria levá-la, como companhia, pra o lugar aonde bêbados inúteis e desprezíveis como eu vão depois que morrem. Não sei onde é, mas deve ter um cara chato se dizendo Deus e julgando cada copo já tomado em vida. E não deve haver nada além de sufocantes cubículos como esse, onde passaremos a eternidade sem cigarros e com perfumes vagabundos, esperando por uma dose que nunca vai chegar. Eu, pelo menos, levaria a merda toda como companhia. Eu começava a me afeiçoar àquela lixeira. Eu já gostava daqueles palitos de fósforo usados formando o desenho de alguma coisa que conheço, mas não sei identificar. Devo estar enlouquecendo. Pode ser também a falta de ar, pois não há janela alguma nesse banheiro. Há apenas eu, sentado abraçado com uma lixeira e a privada. Eu, a lixeira, a privada e o cheiro que já parece fazer parte de mim.
        Pensando no cheiro lembrei estar vivo. Eu já estava me acostumando à idéia da morte morna, da eternidade no banheiro namorando essa lixeira em algum lugar qualquer de qualquer universo – paralelo ou não. Mas estou vivo, e parece mesmo que alguém bate na porta. Não tenho certeza: um de meus ouvidos está colado à privada, e o outro anda meio ruim. Eu podia abrir a porta e descobrir, mas não posso levantar. Não posso abandonar todas essas idéias magicamente mórbidas aqui, nessa lixeira, e simplesmente seguir vivendo. E não lembro como a vida La fora é. Não faço idéia de quantas horas estou aqui dentro, e pra ser bem sincero, não sei nem ao menos de qual lugar este banheiro é.
        Batem à porta mesmo. Me apóio na maçaneta em busca de equilíbrio para levantar e a porta se abre. É a dona do bar, pedindo nada gentilmente que eu saia do banheiro pois o dia amanheceu.  Reúno minhas forças e minhas idéias e deixo o sangue vermelho morte espalhado pelo chão, junto àquele papel de cigarro e outros detritos. A morte morna, o confinamento eterno e a lixeira transbordante pela qual eu me apaixonara  ficam pra trás, embaladas pelo som da descarga. E eu, que agora seguro uma dose entre as mãos, fico aqui - sentado - mergulhado numa imaginária lixeira, cercado acalentadoramente por toda sujeira e o cheiro nauseante, me misturando a essa merda toda.