Fiquei sentado naquele banheiro minúsculo, mal cheiroso e abafado por horas. Não conseguia levantar. A incompreensão do que estava acontecendo me atordoava. Como sair daquele cubículo? Como levantar daquele canto, sujo, onde eu dividia meus pensamentos com a lixeira transbordante. Se fosse pensar bem, eu estava no melhor lugar do mundo pro estado em que me encontrava: na merda.
Olhei para um papel de cigarros jogado no chão e senti vontade de fumar. Vasculhei os bolsos, e a única coisa que achei foi um rasgo do lado esquerdo. Pra ser sincero, nem me importei muito com o bolso. Meu lado esquerdo inteiro estava rasgado. Eu estava rasgado por inteiro, esperando apenas esvair em sangue até morrer. Deve ser morno morrer assim. Vendo a vida, vermelho morte, partindo aos poucos. O sangue jorrando no começo, carne arroxeada exposta e o líquido quente jorrando com velocidade e agonia. Depois, conforme a lentidão da hemorragia se aproxima apreciar a necrose da ferida, o cheiro metálico de sangue e um resquício daquele perfume barato e nojento impregnado na pele já sem cor, de veias murchas e não mais azuis. Eu já podia sentir o cheiro putrefato de carniça saindo daquele pequeno banheiro de bar: as pessoas tapando os narizes e reclamando do estado de limpeza das coisas hoje em dia. E eu morto, fedendo junto com os papéis da lixeira, com a camisa branca de botões ensopada de sangue e perfume, com um riso de escárnio, daqueles que nascem no canto da boca. Eu – morto e contente.
Eu senti uma paz tão grande pensando nisso que até abracei a lixeira. Queria levá-la, como companhia, pra o lugar aonde bêbados inúteis e desprezíveis como eu vão depois que morrem. Não sei onde é, mas deve ter um cara chato se dizendo Deus e julgando cada copo já tomado em vida. E não deve haver nada além de sufocantes cubículos como esse, onde passaremos a eternidade sem cigarros e com perfumes vagabundos, esperando por uma dose que nunca vai chegar. Eu, pelo menos, levaria a merda toda como companhia. Eu começava a me afeiçoar àquela lixeira. Eu já gostava daqueles palitos de fósforo usados formando o desenho de alguma coisa que conheço, mas não sei identificar. Devo estar enlouquecendo. Pode ser também a falta de ar, pois não há janela alguma nesse banheiro. Há apenas eu, sentado abraçado com uma lixeira e a privada. Eu, a lixeira, a privada e o cheiro que já parece fazer parte de mim.
Pensando no cheiro lembrei estar vivo. Eu já estava me acostumando à idéia da morte morna, da eternidade no banheiro namorando essa lixeira em algum lugar qualquer de qualquer universo – paralelo ou não. Mas estou vivo, e parece mesmo que alguém bate na porta. Não tenho certeza: um de meus ouvidos está colado à privada, e o outro anda meio ruim. Eu podia abrir a porta e descobrir, mas não posso levantar. Não posso abandonar todas essas idéias magicamente mórbidas aqui, nessa lixeira, e simplesmente seguir vivendo. E não lembro como a vida La fora é. Não faço idéia de quantas horas estou aqui dentro, e pra ser bem sincero, não sei nem ao menos de qual lugar este banheiro é.
Batem à porta mesmo. Me apóio na maçaneta em busca de equilíbrio para levantar e a porta se abre. É a dona do bar, pedindo nada gentilmente que eu saia do banheiro pois o dia amanheceu. Reúno minhas forças e minhas idéias e deixo o sangue vermelho morte espalhado pelo chão, junto àquele papel de cigarro e outros detritos. A morte morna, o confinamento eterno e a lixeira transbordante pela qual eu me apaixonara ficam pra trás, embaladas pelo som da descarga. E eu, que agora seguro uma dose entre as mãos, fico aqui - sentado - mergulhado numa imaginária lixeira, cercado acalentadoramente por toda sujeira e o cheiro nauseante, me misturando a essa merda toda.