da série Aquarelas
***
Hoje nem vi a cor do dia. Não sei
se houve sol, ou choveu, ou se foi um dia típico de outono – nublado de prata. Para
mim, Bela Adormecida de um domingo de abril, teve foi cor de olho fechado, de
luz apagada, de sonho se sonhando.
Mas a noite eu vi: tem cor de ausência. Cor de lugar vazio na cama, um tom meio
preto-cadê-você. Tem uma matiz de desejo incontido, meio perdida nessas nuvens
revoltas que o vento vem trazendo pra cá, pra minha janela, que está aberta a
essas horas nem sei porque. Pra te ver chegar, talvez. Mesmo sabendo que não
virás, e que as cores da tua noite são outras... São cores de gente falando,
copos caindo e – quiçá – corpos também.
O meu corpo, em contrapartida, cai no vácuo que deixaste aqui ao lado quando
apressadamente te levantaste da cama, ontem. Sim, ontem. Desde ontem meu corpo
gira como bailarina dessas caixinhas nacaradas que sempre – sempre! – tocam
Pour Elise. Gira procurando um lugar pra se encaixar, um abraço. Teu braço, no
meio da cama, ocupando meu espaço e meu pensamento, agora. E ate agora, nada do
teu calor, do teu olho – bonito – me olhando de perto, e me vendo assim nua,
com a cara limpa e o coração gotejando tua falta em minúsculos pingos desse
vinho tinto, que mancha as cobertas e turva as manchas em desenhos de lembranças
de toda uma vida.
Se eu tivesse um cigarro, acenderia –o e faria figuras em sua fumaça. Isso
distrai como poucas coisas na vida. Como não tenho, observo aquelas mesmas
nuvens – girando elas também como bailarinas – que correm que se te procurassem
também. Que noite cheia de cores, para alguém que teve um dia apenas com a cor
dos seus sonhos! Uma menina bonita – bonita! – canta coisas também bonitas para
mim, apenas. Me embala, me nina e me diz que o blues consola. Engraçado. Se o
blues consola, porque esta camiseta azul – tua – que vesti para que ao menos
teu cheiro viesse me habitar, não te materializou aqui? Ah, grande bobagem!
Todo mundo sabe que não é apenas de azuis que são feitos os arco-íris.