segunda-feira, 13 de maio de 2013






Enquanto tomava um café, naquela tarde amena de domingo, pensava nela. E então, tudo a sua volta se modificava: sumiam as pessoas nas mesas ao redor, sumiam os transeuntes do lado de fora da janela - a mesa da janela sempre. Observar é um vício, e como todo vício quer ser alimentado. Precisa ser alimentado, nutrido, acariciado. - some o próprio café, com seus garçons, some o piano ao fundo. 


Resta apenas ele, em sua própria companhia, comendo vagarosamente e sonhando com estrelas. O cheiro dela ainda está nele: cheiro do desejo que não o deixa em paz. Pensa nela - nas pernas dela, no beijo dela, no olho dela - e seu corpo grita: arrepios nas costas, calor no rosto,  sensações palpáveis a chamam, silenciosa e ardentemente. Nem o café gelado que toma abranda os ânimos.

O pianista toca uma canção dos Beatles. Será mesmo dos Beatles? Memória não é lá o seu forte - e ele viaja entre  guardanapos e pensamentos. Ela, claro. Ultimamente têm pesando muito nela. No toque, na pele, e naquela forma particular como ás vezes um simples olhar bastaria. Em como eles se bastam. E se completam. E se transbordam. E em como esse excesso que produzem muda  o dia, o tempo, a vida. Mudou a minha vida, sussurra ele.
Por instantes retorna ao café: as pessoas, as vozes, o piano.Numa mesa ao seu lado duas garotas cochicham: quê será que esse moço, que olha alguma coisa que perece estar a quilômetros daqui, tanto rabisca em um domingo de sol onde todos passeiam? O que ele escreveu nesses pequenos guardanapos que o fez sorrir assim? Nem ele mesmo saberia como responder. 

Pede a conta, abre um sorriso e se lembra de um refrão, ironicamente. Definitivamente, um Beatle. E com ele as respostas.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Blue



da série Aquarelas
***



         Hoje nem vi a cor do dia. Não sei se houve sol, ou choveu, ou se foi um dia típico de outono – nublado de prata. Para mim, Bela Adormecida de um domingo de abril, teve foi cor de olho fechado, de luz apagada, de sonho se sonhando. 

        Mas a noite eu vi: tem cor de ausência. Cor de lugar vazio na cama, um tom meio preto-cadê-você. Tem uma matiz de desejo incontido, meio perdida nessas nuvens revoltas que o vento vem trazendo pra cá, pra minha janela, que está aberta a essas horas nem sei porque. Pra te ver chegar, talvez. Mesmo sabendo que não virás, e que as cores da tua noite são outras... São cores de gente falando, copos caindo e – quiçá – corpos também. 
         O meu corpo, em contrapartida, cai no vácuo que deixaste aqui ao lado quando apressadamente te levantaste da cama, ontem. Sim, ontem. Desde ontem meu corpo gira como bailarina dessas caixinhas nacaradas que sempre – sempre! – tocam Pour Elise. Gira procurando um lugar pra se encaixar, um abraço. Teu braço, no meio da cama, ocupando meu espaço e meu pensamento, agora. E ate agora, nada do teu calor, do teu olho – bonito – me olhando de perto, e me vendo assim nua, com a cara limpa e o coração gotejando tua falta em minúsculos pingos desse vinho tinto, que mancha as cobertas e turva as manchas em desenhos de lembranças de toda uma vida. 
Se eu tivesse um cigarro, acenderia –o e faria figuras em sua fumaça. Isso distrai como poucas coisas na vida. Como não tenho, observo aquelas mesmas nuvens – girando elas também como bailarinas – que correm que se te procurassem também. Que noite cheia de cores, para alguém que teve um dia apenas com a cor dos seus sonhos! Uma menina bonita – bonita! – canta coisas também bonitas para mim, apenas. Me embala, me nina e me diz que o blues consola. Engraçado. Se o blues consola, porque esta camiseta azul – tua – que vesti para que ao menos teu cheiro viesse me habitar, não te materializou aqui? Ah, grande bobagem! Todo mundo sabe que não é apenas de azuis que são feitos os arco-íris.