sábado, 30 de julho de 2011

Feminino Abstrato

       



        Eu abro os olhos na cama e ela ali, do lado. Viro lentamente, de olhos abertos, e não posso conceber como ela passou por mim e se deita languida do outro lado, tragando um cigarro que cheira a incenso.  Eu deito na cama numa posição quase fetal, como se o ângulo dos meus joelhos pudesse afastá-la, mantendo tudo aquilo do lado de lá, fora das cobertas, fora de visão, fora.
        Mas não adianta, afinal, nunca adianta. Me responde: você já dividiu a cama com alguém que não queria? Alguém que não fazia sentido algum, mas estava inexoravelmente ali, sem que se pudesse negar o fato? Aquele cheiro, que você finge que não sente, mas ocupa travesseiro, cama, quarto, casa – e você segue se perguntando que diabos está fazendo da vida, assim: ‘O que diabos estou eu fazendo da vida?’
        Sabe o que quero dizer, não é? Pois é. O diabo é que ela dorme nessa cama desde o dia em que a deixei se deitar pra descansar um pouco. E não importa se desejo dividi-la com outra pessoa: ela topa. Diz que gosta de mim, que aceita dividir a cama. Que o lance entre a gente é muito mais profundo, que a ligação é – a esta altura dos fatos – impossível de ser desfeita. E enquanto calmamente explica isso, a malvada sorri. Aquele sorriso que brota na cara das pessoas quando elas sabem que tem razão, e que já não há o que argumentar. E eu acabo, como sempre, aceitando a condição de estar ao lado dela. Naquele regime dos padres, ‘pra todo o sempre até que a morte os separe’, ou coisa que o valha.
        Ela tem todo aquele charme, aquele mesmo, das mulheres fatais. Primeiro se senta do outro lado do bar, te olha de esguelha enquanto você escolhe um drinque, sentado sozinho esperando ninguém. E caso você se atreva a olhar em sua direção, rapidamente baixa os olhos e brinca com o copo entre os dedos, mesmo que nem goste de gim. Aí vem aquela caça pelos olhares perdidos entre as pessoas que transitam. Algumas noites depois, vocês já estão tomando um vinho e acabam virando a noite a esmo pelas ruas. Então, ela se torna sua. E você se torna dela. Não há mais limite entre os dois: você a detesta, mas precisa daquele sentimento. Você a adora. É sua musa. Para ela sonetos, para ela odisséias intermináveis de corações arruinados e poetas sofrendo em odes.
        Entende onde quero chegar? Eu não. Continuo olhando pra ela, que agora passou a fumar cada dia mais. Enrolada com Angústia entre as cobertas, escuto histórias tristes e choro até dormir. Ela me pertence menos que eu a ela, tornando-se o sujeito do meu ser. A despeito do que digam, o substantivo feminino abstrato nessa sentença sou eu.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Substantivo feminino

.






Não fui feita de sutilezas.


Por isso,
amor,
me deixa exagerar no teu corpo.





quinta-feira, 7 de julho de 2011

Haikai Bordado








a alma sonha
deitada entre 
corpo e  fronha






quinta-feira, 23 de junho de 2011

Melancholia






Minha qualidade de ser triste
não vem do Tempo,
não vem do clima,
não vem de ti.
Nem nunca virá.

É um vício
um estado de ser
de estar
Entrar dentro de mim
trancar à chave
apagar a luz
e me namorar em completo silêncio.






quinta-feira, 16 de junho de 2011

.







Horas brilho
Horas escuridão

Nasci meio mulher
Meio vagalume






.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Ocasional,






Foto: Mônia R.





Ocasional,

o fim da tarde
finda cedo.










Foto do quintal de casa, às 17:49 horas. Curitiba escurece antes que os próprios grilos percebam.

Vocálicas

*






gritei
em ditongos crescentes
pela madrugada inteira
o teu nome

insone
o músculo pulsava 
- ecoando no saguão do peito - 
espião de todos meus erros

cruel  desencontro  
entre(o)sono
meu poema é hiato:
voo.






*

terça-feira, 10 de maio de 2011

Como fossem meus dentes





Como fossem meus dentes
caindo um a um
vão pouco a pouco desaparecendo certas lembranças.


Minha carne sangra esquecimento.



sexta-feira, 6 de maio de 2011

Dourado



da série Aquarelas

***



        Sentada em meio aos lençóis anoitecendo em laranja neste quarto eu penso em ti. Em quanto te desejo, em quanto preciso da tua presença aqui. Dramaticamente, pateticamente, desesperadamente: pulsando em mim como um dedo que lateja, sim, doendo se preciso . Incomodando se preciso. Irremediavelmente se fazendo sentir.
     Na cabeceira da cama, os travesseiros parecem estar alvorecendo, e não se  despedindo   do dia, como eu. Parecem estar esperando apenas tua chegada para desabrochar as flores estampadas pelo leito, jogadas pelo quarto, despetaladas na minha lembrança. Flores mortas. Flores sem perfume, flores cheirando a papel velho e agonia. Tu me faltas, e então o outono chega: nas janelas, na árvore aqui em frente - que ainda tem aquele nome gravado -, nos meus lençóis. O outono chega em mim, me ventando por dentro e  derrubando lágrimas sépia.
           Tua ausência morena  tinge meus dias de dourado.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Morpho



Ou Seda azul, para ti.



Veio caindo
caindo
a pétala azul
até repousar na minha mão.

E eu que sorria flor
agora choro borboleta.






segunda-feira, 2 de maio de 2011

Dama Branca






Passara a vida sentada no jardim
Angelicalmente tingida de flores alvas
Com um beijo
De pêssego maduro
Pendendo do lábio

Esperava seu consorte
Vestida de renda branca
Tiritando de frio

Nunca soubera
Se inverno ou primavera.




domingo, 1 de maio de 2011

Futuro do Pretérito Imperfeito I

        


           
        Ás vezes sinto falta do teu jeito: arrogante, presunçoso e cheio de charme. Do jeito como me olhava nos olhos, sob aquela luz bruxuleante do fim da tarde, e parecia me atravessar como uma lança das Cruzadas perpassando um infiel. Eu, com a  eterna heresia queimando a carne, me sentia acuada, desvendada, apaixonada. Perdidamente. Perdida numa cidade não minha, nos teus caminhos tão próprios e nesses beijos não meus. A cada passo por essas ruas sujas eu via uma paisagem nova, e te descobria outro: a inteligência que me batia na face, rebatendo cada frase capciosa que me escapava por entre os dentes. Em você, eu gostava das idéias. Da forma como a teoria te escorria sumarenta nas conversas, virando depois polpa amassada na prática da vida. Mas como eu não era tua vida, e nem ao menos sabia se desejava pertencer a ela, pouco me importavam tuas práticas. Tua teoria me encantava, e de ti eu fazia um pequenino livro a cada noite que nos encontrávamos, num daqueles bares sujos onde começávamos heróicas peregrinações em busca de qualquer diversão superficial e barata, que nunca terminavam antes do sol nascer ou da bebida nos derrubar num lençol de motel de quinta categoria. Motéis que – segundo você – custavam menos que aquela garrafa de vinho argentino que eu escolhi pra te levar pra cama.
        Ainda hoje às vezes te levo pra cama, em meio a sonhos encharcados daquele mesmo vinho com que nos declaramos descaradamente nossos pra sempre por aquela manhã. Abuso teu corpo, com minhas unhas grandes de sonho, com meus dentes afiados, te enlaço com meus cabelos. Te possuo à margem, despudorada e impura. E então acordo santa, cada dia menos tua.







sexta-feira, 29 de abril de 2011

Péantepé





Mais um passo
e tudo posso
nos teus espaços.

Mais um passo
e então perpassas
os meus esboços.

Mais um passo,
e seremos nossos.




terça-feira, 5 de abril de 2011




Açucena
desmadrugada
molhada
de orvalho:
sou eu
desejando
beija-flor
na ponta do galho...




segunda-feira, 4 de abril de 2011

Meio tom



da série Aquarelas

***


Eu passara o dia em branco. Ou seria em preto? Gris, sombra, carvão... Qualquer cor que escolhesse não seria precisa. Eu hoje tinha a cor – a indescritível cor – daqueles velhos livros de escola que emboloram guardados nos porões úmidos. Eu própria era uma espécie de porão, onde entulhara tudo que nunca me permitira sentir, até que apareceras me abrindo janelas, soprando tua brisa entre as páginas já há muito fechadas.
E agora eu te esperava. Com aquela sensação de ter um coração extra, batendo pendurado na boca do estômago, pois tu vinhas e eu te esperava. E rapidamente começara a me sentir feliz, diante da espera daqueles olhos.
Com as mãos úmidas e um sorriso pendente do canto da boca, eu arrumara a casa, estendera as cobertas na cama – desfeita o dia todo – e passara um café pra espantar a ansiedade que latejava junto aquele coração acoplado ao estômago.  Embaixo da água do chuveiro, deixara todas palavras duras que conhecia, e guardara entre as pálpebras os olhares mais doces que conseguira. Cheirando a sândalo, refestelada entre as almofadas eu esperei e esperei. A cada luz de um automóvel qualquer invadindo a vidraça, eu fechava a revista que já folheara tantas vezes que nos cantos das páginas jaziam impressões inertes de meus dedos. Impressões que deveriam estar em ti, pelo teu corpo que eu esperava sentada na cama, perfumada e colorida.
Então entendi que não virias. Lentamente apaguei as luzes, desliguei o som e fechei as marcas que dedos que pintara naquelas páginas cheias de imagens e cores que eu nunca vivera, e nem creio que um dia o faça. O colorido ficara adormecido junto a tua ausência. Mais uma noite meio cinza. Meios tons. 
Meia noite. E, pela metade, eu.

Letras Vermelhas




        Coloco as mãos no bolso e as lágrimas para fora. O vento é gelado e me queima o rosto por onde correm imagens distorcidas, misturando o que foi e o que temo que nunca será. A realidade se mescla aos meus devaneios em rostos que imagino ver refletidos nesses vidros ao meu lado. Os carros passam, o trânsito pára, as pessoas andam como formigas carregadeiras indo e vindo para lugar algum. Entre elas fico eu, parada, fumando um cigarro na contramão da vida. Onde vão dar todos esses caminhos que todos percorrem?! Eu queria mesmo era parar, parar...

        Faço um pedido ao meu cílio esquerdo que caiu. O que quero agora é tão absurdo que nem o cílio acredita e voa. E quem foi que me disse que pêlos caídos realizam desejos?!

        Acompanho alguns insetos com os olhos, quebro um graveto com as mãos e a noite cai. A garoa não é mais fria que eu, portanto não me incomoda. Resolvo tomar uma atitude. Ou uma cerveja, o que eu encontrar primeiro. Andei tanto sem me dar conta que não sei exatamente onde estou. Grande novidade. Há muito já não sei onde me encontrar. O frio está cada vez pior, e meus dedos da mão doem. Decido tomar um ônibus.

        Gente. Que coisa feia são as pessoas. Sempre com suas caras forçadas, cansadas ou de uma alegria tão besta quanto passageira. Misturo-me a eles. Mostro a língua para uma criança que não cansa de me olhar, ela acha graça e ficamos fazendo caretas, a despeito da mãe e, creio que, do restante do ônibus acharem aquilo um absurdo. Queria mesmo é que as línguas daquele ônibus todo caíssem. Pelo menos parariam de vomitar palavras em vão.

        Gostaria tanto de deitar e conseguir dormir. Mas meu travesseiro não deixa. Fica segredando coisas cruéis nos meus ouvidos e me obriga a gritar para abafar sua voz. E é simplesmente impossível dormir com gritos na garganta. Levanto meu corpo, arejo minha alma e hasteio meus pensamentos. Minha melhor companhia é a tinta. Escrevo como um autista que repete o mesmo movimento contínua e loucamente.

        Se pudesse escreveria na tua cara com letras vermelhas: é você a palavra que me falta.

domingo, 3 de abril de 2011

Lupina



Nos teus olhos
- escuros como a noite que vimos dormir pra que viesse o Sol -

me perco.

Não conheço teus caminhos,
e por isso ando em círculos como um animal ferido.

Quem dera tivesse o brilho capaz de ascender estrelas!





quinta-feira, 31 de março de 2011




Ouvindo o barulho lá fora
pensei que era tua chegada.

Quem dera!
Era só minha vontade em revoada.






quarta-feira, 30 de março de 2011




Nessa manhã
densa
acordo mansa

flor da apaixonada insônia

somente para esperar o ocaso
e murchar
em tons violáceos
- confirmadamente perecível -
com vagar nos teus braços.




Foto: Mônia R.




terça-feira, 15 de março de 2011

    

"(...)     

    Foi um dia daqueles. Daqueles em que eu gostaria de ser qualquer coisa inanimada, não pensante. Menos um ovo, que segundo Quintana pode ser inquietante. Mas tava valendo aquela concha, que vejo pendurada, ou esse cinzeiro sujo aqui. Isso me lembra que tenho que comprar cigarros, e quem sabe um vinho bom, pra sentar aqui e escrever. Jogar tudo pra fora e ir organizando aos poucos. Hoje tomei um café pensando na minha gaveta de meias, toda bagunçada, onde se misturam coisas inúteis a meias sem pares, na pacífica convivência que o caos promoveu.  Acho que estou vivendo em meio a ela sabe? Na desorganização calmamente aceita, na ausência de sentido nas combinações executadas. Fico sentada, em meio a fitas de cetim e antigos bilhetes guardados, procurando algo que faça sentido: um par de meias iguais. Ou bastante parecidas, ao ponto de não se notar a diferença sem mais análises. Qualquer coisa que faça sentido.
       Mas vai caindo à noite e vai ficando cada vez mais difícil. Cada vez que o sol cai, a gaveta vai ficando escura e eu canso de procurar a escolha mais acertada, e saio com uma meia de cada par, pisando insistentemente entre o certo e o errado."

quinta-feira, 10 de março de 2011

Veja essa canção




Que lindo pôr do sol aquele
em que o laranja beijava o mar
e o mar lambia a areia
e areia acariciava teus pés,
que iam andando, andando ao meu lado
sem jamais me alcançar.

Mas isto tu não sabias
e me contava rindo dos idos anos que não vivera
enquanto os postes, tristes, olhavam com inveja a lua...

Foto: Mônia R.

Vermelho morte

        



        Fiquei sentado naquele banheiro minúsculo, mal cheiroso e abafado por horas. Não conseguia levantar. A incompreensão do que estava acontecendo me atordoava. Como sair daquele cubículo? Como levantar daquele canto, sujo, onde eu dividia meus pensamentos com a lixeira transbordante. Se fosse pensar bem, eu estava no melhor lugar do mundo pro estado em que me encontrava: na merda.
        Olhei para um papel de cigarros jogado no chão e senti vontade de fumar. Vasculhei os bolsos, e a única coisa que achei foi um rasgo do lado esquerdo. Pra ser sincero, nem me importei muito com o bolso. Meu lado esquerdo inteiro estava rasgado. Eu estava rasgado por inteiro, esperando apenas esvair em sangue até morrer. Deve ser morno morrer assim. Vendo a vida, vermelho morte, partindo aos poucos. O sangue jorrando no começo, carne arroxeada exposta e o líquido quente jorrando com velocidade e agonia. Depois, conforme a lentidão da hemorragia se aproxima apreciar a necrose da ferida, o cheiro metálico de sangue e um resquício daquele perfume barato e nojento impregnado na pele já sem cor, de veias murchas e não mais azuis. Eu já podia sentir o cheiro putrefato de carniça saindo daquele pequeno banheiro de bar: as pessoas tapando os narizes e reclamando do estado de limpeza das coisas hoje em dia. E eu morto, fedendo junto com os papéis da lixeira, com a camisa branca de botões ensopada de sangue e perfume, com um riso de escárnio, daqueles que nascem no canto da boca. Eu – morto e contente.
        Eu senti uma paz tão grande pensando nisso que até abracei a lixeira. Queria levá-la, como companhia, pra o lugar aonde bêbados inúteis e desprezíveis como eu vão depois que morrem. Não sei onde é, mas deve ter um cara chato se dizendo Deus e julgando cada copo já tomado em vida. E não deve haver nada além de sufocantes cubículos como esse, onde passaremos a eternidade sem cigarros e com perfumes vagabundos, esperando por uma dose que nunca vai chegar. Eu, pelo menos, levaria a merda toda como companhia. Eu começava a me afeiçoar àquela lixeira. Eu já gostava daqueles palitos de fósforo usados formando o desenho de alguma coisa que conheço, mas não sei identificar. Devo estar enlouquecendo. Pode ser também a falta de ar, pois não há janela alguma nesse banheiro. Há apenas eu, sentado abraçado com uma lixeira e a privada. Eu, a lixeira, a privada e o cheiro que já parece fazer parte de mim.
        Pensando no cheiro lembrei estar vivo. Eu já estava me acostumando à idéia da morte morna, da eternidade no banheiro namorando essa lixeira em algum lugar qualquer de qualquer universo – paralelo ou não. Mas estou vivo, e parece mesmo que alguém bate na porta. Não tenho certeza: um de meus ouvidos está colado à privada, e o outro anda meio ruim. Eu podia abrir a porta e descobrir, mas não posso levantar. Não posso abandonar todas essas idéias magicamente mórbidas aqui, nessa lixeira, e simplesmente seguir vivendo. E não lembro como a vida La fora é. Não faço idéia de quantas horas estou aqui dentro, e pra ser bem sincero, não sei nem ao menos de qual lugar este banheiro é.
        Batem à porta mesmo. Me apóio na maçaneta em busca de equilíbrio para levantar e a porta se abre. É a dona do bar, pedindo nada gentilmente que eu saia do banheiro pois o dia amanheceu.  Reúno minhas forças e minhas idéias e deixo o sangue vermelho morte espalhado pelo chão, junto àquele papel de cigarro e outros detritos. A morte morna, o confinamento eterno e a lixeira transbordante pela qual eu me apaixonara  ficam pra trás, embaladas pelo som da descarga. E eu, que agora seguro uma dose entre as mãos, fico aqui - sentado - mergulhado numa imaginária lixeira, cercado acalentadoramente por toda sujeira e o cheiro nauseante, me misturando a essa merda toda.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Covardia




Na minha intensidade já sempre sabida, fui ao fundo daquele armário buscar as melhores coisas pra te dar. 

Vasculhei as gavetas na captura de lembranças boas, laços de fita, pedaços de mim cheirando a poesia.  Juntei tudo da melhor maneira que pude e desenhei um cartão a aquarela. Não sou feita das entregas, mas quando encontro endereço, me remeto sem embrulhos, com a urgência dos presentes há muito guardados.

Na minha ingenuidade femininamente apaixonada, eu sentei e esperei. Esperei que da tua garganta escapassem palavras enamoradas, embotadas de sentimento. Pensei que sentisse. Pensei até que sentisse, e talvez, não mo dissesse. Então, acalentei a esperança de um beijo, um toque no cabelo, um pequeno gesto, um sublimado olhar. Mas nem em partes. Nem um meio olhar, um pedaço de sorriso, um esboço de aceno.

A mim bastava apenas uma pequena palavra, que nunca disseste. Uma voz em meio à madrugada, acendendo a luz do meu quarto e jogando as cobertas longe, para me ver nua refletindo os raios lunares que penetram à persiana, da forma como não o fizeste.  

E eu que pensei que sentisses.

Ou não sentes, ou tens coragem. E juro que não sei o que me parece pior. 

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Verde Amarelo Blue



Estou sentada na sala, fumando no escuro. Descansando da limpeza. De te varrer de vez. Lavar teus riscos pelas paredes.

Do mofo, formando desenhos de veludo pelas paredes amareladas, eu até gostava.  Agora os riscos, a me espreitar por todos os cômodos, até nos azulejos – por esses eu me sentia vigiada. Não, eu sentia que eles me acompanhavam onde quer que fosse.  Dentro dessa casa, não havia mais onde olhar para o vazio. As paredes – sem quadros – estavam rabiscadas com poemas, com desenhos rudimentares e palavras jogadas, assim, ao léu naquelas noites de porre.  Nos minutos preenchidos de conversas entre a tua lembrança e eu. Numa madrugada, sentada exatamente como agora, fumando no escuro, na poltrona em frente à porta - o farol dum carro iluminou a sala e eu vi um livro se formar pelas paredes. E a personagem não era eu.  Então entendi que ali dentro nunca estaria sozinha, com tantos sentimentos pendurados a grafite juntando poeira ao meu redor.  Eu precisava do vazio. De um pouco dele, ao menos.

Aos poucos fui esfregando as lembranças, sabe, ensaboando uma a uma. E fui lavando junto os quadros que o mofo criara pra ilustrar essa história. Aos poucos. Eu limpava tudo com a paciência de um colecionador. Aos poucos a casa voltava a ser amarela.  E de repente, eu havia te raspado das minhas paredes – junto com água sanitária e bolor.  Deu tanto trabalho apagar tudo! Meu corpo doía por inteiro. Foi preciso machucar  por inteiro, querer por inteiro pra ir até o fim.  Eu terminei a última parede. Olhei no relógio e já se fazia madrugada.

Apaguei as luzes e me sentei aqui, na poltrona em frente à porta. Ainda estou aqui, com meu cigarro, esperando que um carro passe e ilumine a sala.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Lagarteando


A felicidade é algo que flutua no ar.

Colorida e sonora como um devaneio onírico em que sou a personagem principal.
Em meio a fumaça - que nos separa -  me vejo sentada naquele velho cogumelo a divagar:

basta inventar verdades, acreditar no que nunca foi dito, dizer o que nunca interessou a ninguém?

Mas porque se preocupar com quem não vive?!

Afinal de contas, todos aqui somos loucos -
eu, você, o gato.


Todos, menos quem intenta ser.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Tolices



Inquietações...


Psicodelias
psicologias
psicopatias
ecoando nos ouvidos, 
confusões transbordando pelos olhos, 
sensações conflitantes eclodindo como sangue pelos poros: 
me faz sentir viva,
me mata de angústia.


Tenho faces
fases
frases 
diversas demais me habitando o corpo, 
como fosse macela 
de uma boneca de pano, 
que quando se aperta explode pelos vãos das costuras.  


Quietude.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

***




Há dias que a vida assobia
 - melodiosa:

quando deito poesia
 e acordo prosa.





domingo, 6 de fevereiro de 2011

Do jornal

Pego o jornal
Não são quadrinhos que busco
Crônicas políticas, economia circense
Fraudes, sequestros de diplomatas
ou o campeão do Estadual.

Meus olhos buscam
afoitos
pelos classificados.

Eu procuro por um mundo melhor.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

***


Foto: Mônia R.





Estrada reta
ou curva incerta?

Amor,
desvio de rota.

Da menina na janela



da série Aquarelas

***


Eu fazia desenhos na janela suada pela água fervente do café. Desenhava um trem. Um trem que me levasse pra longe, que viesse com todos aqueles barulhos dos poemas de Drummond, com as cercas passando do Quintana, com todos os adeuses da Cecília. E me desenhava na janela dele, bonequinha de palitos, com um largo sorriso e um gesto de aceno pendurado na ponta dos dedos, que, elevados ao céu, pareciam querer tocar uma nuvem.  Desenhava um passarinho, e me lembrava daquela pena que recolhi naquela manhã em que a grama estava molhada, e eu olhava calmamente as vacas pastando e as nuvens preparando silenciosamente, em azul denso e escuro, a chuva. Eu amava aquela pena. Ela me lembrava que eu também sou feita de nuvem. Que vago por aí, escondendo sóis, dançando nos ventos e - quando blue - chovendo inteira pra voltar mais clara, mais pura, mais brilhante. E carregando todas coisas dos ares percorridos, das terras por onde passo. Parece que hoje vai chover. A água fervia e eu desenhava. Desenhava como criança, com traços tortos e confusos. O vapor ia cobrindo meus desenhos, e eu inventando a cada movimento de dedo uma nova história. E a cada novo elemento, fechava os olhos e sorria por dentro: me imaginava naquele trem, contornando aquela serra, cruzando caminhos que não conheço, descendo em uma estação qualquer para fumar um cigarro antes que a viagem continuasse. Por que ela sempre continua.

E eu continuo a menina na janela. Na janela desse trem, desenhado na minha janela.



***

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Pequenino conto pra acertar as contas

O que eu queria que estivesse aqui escrito é aquele texto, mal educado, escroto e sincero, que te escrevi na madrugada. Mas eu sou polida, eu tenho escrúpulos, e não teria paciência pras tuas perguntas cretinas. Sim, porque tudo pra ti são perguntas, mesmo quando as coisas são diretas e são pra outras pessoas. Já as tuas diretas - as que só não te esfrego na cara porque meu braço ainda não criou o tamanho de estapear nessa distância - essas, nunca! Como fosse cego. Muito cego, pra não usar outra palavra bem mais ofensiva. E realista.
Não vou colocar ele aqui. Vou só fazer vontade nos outros de saber o que eu realmente queria dizer. O que eu, se tivesse voz pra tanto, tava cantando em todas as rádios, me rasgando de te achincalhar. E não por recalque, só pra te achincalhar. Puro prazer, sadismo. Só porque eu sou boazinha demais pra minha bondade ser verdade. Porque eu sou uma megera, e como todas, quero que você se foda e quero assistir tomando um drinque naqueles banquinhos altos, charmosos, de bar. Ou dois. Ou quantos a tua escrotice permitir.
Não vou colocar ele aqui.  Mas vou fazer um pequenino texto, acerca de um talzinho chamado Bernardo, pra ficar assim, hm, não biográfico. Acontece que o Bernardo era uma cara muito inteligente. Um cara boa pinta. Um cara interessante. Bem, era o que a, digamos, Luisa achava.  E pintava quadros, mentais ou não, do ‘seu muso', que tava mais pra natureza morta que qualquer outra coisa. Ela, ilusão e pincéis. Ele, ali, meio maçã do pecado meio abacaxi. Mas aí a Luisa, que tava terminando um quadro, fechou os olhos de princesa, que tinha aberto só pra ele depois de sair daquela masmorra imunda, olhou de verdade e viu que tinha algumas coisas bem mais vivas ao seu redor.   Ok, a Luisa foi dar uma volta, conheceu outros caras que, aproveitando o kit de metáforas baratas que eu comprei numa liquidação, matariam um dragão por ela. Cortariam a grama do castelo, trocariam a água do fosso, sei lá. O que passa é que a Luisa viu que o Bernardo tava mais pra pangaré do príncipe do que pra príncipe. Era bonito – menos do que ela pintava, certeza. Era interessante, mas num contexto intelectual em que os museus chatos também são. E só era inteligente na hora que convinha. E na hora que convinha, nada.
Um dia, numa epifania de quinta categoria, Bernardo resolveu tentar conversar de uma forma mais, diremos... Tentou conversar com Luisa de uma forma menos... Ah, foda-se. Tentou conversar como gente com ela. Mas não conseguiu, porque de gente a Luisa tem pouco. E o Bernardo acha que tem muito. Então, veio a decepção com sua mágica e transformou a Luisa numa ridícula escrevendo contos as quatro da manhã, e o Bernardo... E o Bernardo? O Bernardo ela não transformou em nada... Ele já tinha fugido da conversa há muito tempo.  Além do que, tava tão desinteressante aquela altura que nem valia gastar feitiço.
Então caiu uma tempestade, e depois veio sol, arco íris, passarinho, tudo aquilo que vem depois da merda.  E a Luisa voltou a fumar e parou de pintar naturezas mortas, e passou a deixar as naturezas vivas a pintarem. Descobriu cada pincel... Do Bernardo teve um a notícia há tempos: disseram que estava fazendo figuração de banana numa fruteira de filme B.

sábado, 29 de janeiro de 2011



"Acho que a gente devia encher a cara hoje, depois a gente fala mal dos inúteis que se acham super importantes."

- Charles Bukowski - 



Hoje fiquei horas e horas sentada em frente a essa máquina que faz com que eu me sinta cada vez mais obsoleta. Além de não entende-la enquanto engrenagem, me coloca o mundo todo na cara, o mundo todo que eu nunca vi, que nem sabia que existia. E me enche de vontade de viajar. Por agora, viajo apenas na fumaça densa pairando por sobre a cama, totalmente desfeita em seus lençóis laranja, cheia de porcarias amontoadas pelo gato num canto. Ele também viaja, da maneira dele. Antes mesmo se debatia num sono convulso. Sabe-se lá o que estaria acontecendo ali. E eu, sinceramente, estava muito mais preocupada aqui.
Estava lendo algumas poesias que me enviaram, e achei uma merda. Ah, mas a fulana publicou um livro. Cíntia – digamos que se chame Cíntia – ganhou incentivos federais pra um montagem acerca de um texto seu. Ah, Bukowski, entendo quando dizia que odeia os POETAS. Estou aqui, sentada escrevendo um sábado à noite com a perna fodida a geladeira queimada sem grana sem comida sem sexo sem saco. E vejo uma escrota, de longos cabelos oxigenadamente platinados, dando entrevistas tão ridiculamente burras quanto seu livro. E enchendo os bolsos de grana. Enchendo o mundo de merda, e enchendo os bolos de grana. Mania de grandeza? Prepotência? Foda-se, gosto mesmo de criticar. E, porra, não escrevo como ela. Até por que se escrevesse daquela maneira não teria coragem de preencher um formulário que fosse, pra não correr perigo de soltar uma pérola. Mas os incentivos federais, veja só! Pra qual marajá será que ela deu pra ganhar aquele nariz novo e de lambuja um livro? Um livro ruim, por deus! Péssimo, nojento como um escarro daqueles bêbados de fim de noite.
Mais textos. Continuo me questionando quem publica essas porcarias. Que compra essas porcarias. Meu deus, que lê essa merda toda amontoada em letras após letras, formando aquelas frases me fazem duvidar da existência de um ser maior. Se eu fosse um ser maior, não permitiria esses assassinatos do bom senso.  Tenho certeza que já vi esse texto em algum lugar. Esper aí... Isso, certeza. Esse texto foi publicado antes mesmo dessa infeliz nascer. Mas ela foi lá, leu, entendeu tudo errado e acrescentou todos os erros que o original não tinha.  O público talvez nem se tenha dado conta da cópia, visto a qualidade dela ser infinitamente menor. A falta de coerência absurdamente maior. A vontade de morrer agora? Infinita. Essa escritora, que já não é a Cintia, então chamemos de ah, Bárbara – ah, ironia das ironias – tem um pouco mais de vinte anos, e um pouco menos de inteligência que o cachorro da minha vizinha, e três – nada menos que três – livros publicados, todos com grandes críticas. E eu aqui, criticando o texto com um copo de bebida amarga e o último cigarro entre os dedos.  Na merda, caro amigo, na merda.
Meu gato me fita do canto do quarto – sujo, cheio de roupas empilhadas e louça suja – como se tivesse pena da minha cara amassada e desgostosa. Mas é assim mesmo, caro felino, é assim mesmo. Vou acender outro cigarro e encher o copo dessa bebida barata que já está começando a me parecer boa. Quem sabe assim, esse texto também me pareça.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

(Im)presente

Eu queria uma festa hoje. Não pude dormir  pensando nisso.  Eu me devia uma festa hoje. E te devia o meu melhor. Se não a presença, apaixonada e tola, ao menos algo de tolo, como o calendário riscado desde aquele dia, ou todos os cacos de lembrança perdidos pela casa, aquele caderno amarelo cheio de declarações de amor,  ou mesmo esse bolo que fiz pra te comemorar sozinha.
Escolhi compenetrada a receita. Tinha de ser completa, tinha de te ganhar os olhos e a boca. Tinha que te fazer meu, por inteiro, por instantes. Tinha de ser uma delícia, assim como nós. Bolo de café trufado, doce na medida a te mostrar todo meu apreço. Doce como o gosto do teu beijo morando no meu céu da boca. Preso entre os dentes como o chiclete do Mautner.  Doce como o riso que escapa, entre esses mesmos dentes, a cada recordação caída do balão surpresa pendurado, subjetivamente pendurado acima de minha cabeça, onde jazem, escolhidas a dedo todos os pequenos relicários em que te transformei dentro de mim.
Discuto pacientemente os ingredientes com o moço da canção: bato os ovos inteiros? Me jogo inteira na massa ou me guardo para ser recheio? Junto à farinha – do desejo? – e misturo os ingredientes como se com isso me misturasse a ti, como num orgasmo unindo os corpos num instante curto e luminoso. A água do café borbulha, e fico assistindo a mágica que tinge o líquido e perfuma o ar. Um copo de café forte na massa, dois copos de café forte em mim. E a cada gole, tua presença me invadindo. O gosto que não é teu, o calor que também não te pertence. Maybe i’m just amazed,e   te pinte em cores vivas pela casa pra disfarçar o cinza lá fora, o cinza aqui dentro, as cinzas do resto. Raspo a tigela como se arranhasse teu corpo jogado nessa mesa cheia de farinha, num fetiche que me arranca arrepios e risos ao mesmo tempo.
Experimento o resultado como se desse um primeiro beijo: cheia de expectativas e água na boca. Amarga como eu, essa receita. Pesada como a tua falta, escura como o dia de hoje, que nasceu gris só pra me acompanhar na cozinha. Coloco açúcar, e experimento.  Acrescento mais saudade, mais baunilha e um pequeno pedaço de mim, e então levo tudo ao forno, para que cresça como cresce essa vontade dentro do peito.
Observo as chamas do fogão enquanto derreto o chocolate, que vai cobrir o bolo e teu corpo nas minhas fantasias. O cheiro adocicado invade o ar da casa que é pequena, mas abriga todo o tamanho da tua ausência habitando sons e silêncios. Preparo o recheio com a volúpia de quem descobre um corpo amado em meio ao sono, receoso de um despertar inesperado, mas tentado por aquele diabo meio Bukowski que vive nas insônias. A calda no fogo explode em bolhas como fosse lava incandescente, e me acende as entranhas que se contraem nesse corpo quente, no calor desta cozinha que agora abriga minhas chamas.
Danço  aquele blues pela sala, acompanhada do vazio entre esses móveis e espero o tempo passar.  Enquanto danço sozinha, deves estar comemorando em meio aos teus. Sorrio feliz pela perspectiva de um sorriso te invadindo, feliz também. Queria que me pudesse ver por pequenos instantes, apenas para que se percebesse em pedaços, ao ver quanto de ti paira aqui, nesse ar, onde Nina e eu te desejamos se liquefazendo sobre meu corpo morno, e me inundando inteira.
Bolo pronto, e a a casa rescendendo a solidão e nostalgia. Cortado ao meio, como tanta coisa por aqui, recheio com calma e sorrisos o bolo que fiz pra te amar em silêncio. Salpico as vontades todas guardadas dentro daqueles pequenos potes sem rótulo, e finalizo com todos os beijos que te daria se estivesses aqui, recheando esse bolo que hoje é só meu. Cubro com cuidado para que o chocolate fique uniforme, pois meu cuidado com esse bolo hoje é meu cuidado contigo, e busco os suspiros mais fundos no peito para enfeitar com capricho teu presente. Então, como uma viúva olhando triste os retratos da sala na penumbra, fico contemplando imóvel meus sentimentos ainda quentes.
Aqueço aquele café já ranço e me sento pra comemorar teu aniversário, para te desejar na distância todo o brilho que ainda não vês, mas que te acompanha calado. Sirvo mais uma xícara de café, e penso em quantos bolos estão sendo feitos a ti nesse momento, quantos já o foram e quantos ainda o serão. Não sei quem te será mais perto, nem quem te será mais caro hoje. E sinto pena de mim, que nem ao menos te contarei que, entre bolo e saudade, fizeste aniversário também aqui dentro de mim.